No caminho da integração das redes
São Paulo, 24 de Julho de 2009 – 16:10
Por Anna Flávia Rochas, da Revista GTD Energia Elétrica 32

Brasil busca acompanhar o ritmo mundial de desenvolvimento das tecnologias Smart Grids. O próximo passo será integrar interesses e soluções
O conceito de Smart Grids, ou redes inteligentes, não é mais desconhecido para o setor de energia elétrica. Muito mais abrangente que apenas a automação de redes, a geração distribuída e a medição eletrônica com canal de comunicação, as Smart Grids não só são compreendidas, como até já se discute se este seria o nome mais adequado às funcionalidades atribuídas ao tema.
“O termo “redes inteligentes” sugere que a rede que temos hoje é “burra”, o que é um desrespeito”, brincou o chairman, Guido Bartels, da associação composta por 90 empresas que defendem o desenvolvimento das Smart Grids nos Estados Unidos – a GridWise Alliance –, durante palestra para o setor brasileiro, no seminário Parceria Inteligente para Smart Grid, em junho. Bartels também é gerente geral do setor de Global Energy e Utilities da IBM.
Brincadeiras à parte, o setor elétrico e de telecomunicações brasileiro planeja, agora, se organizar em grupo com o objetivo de atuar junto ao governo, buscando modificações nas regulações necessárias para difundir as aplicações de Smart Grids no Brasil.
Atualmente, o setor ainda comemora a Portaria 213/2009 do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO), que homologou o primeiro sistema de medição remota no Brasil. Os agentes ainda aguardam os resultados da Consulta Pública 015/2009, sobre medição eletrônica na baixa tensão, e da Audiência Pública 010/2009 sobre o uso do Power Line Communication (PLC, também chamado de Broadband over Power Line), canal de comunicação que ajudará na expansão da medição eletrônica e na comunicação bidirecional, por meio da rede elétrica.
Os representantes da indústria e de concessionárias estão se reunindo periodicamente para discutir os conceitos de Smart Grid. Em maio, o Fórum Latinoamericano de Smart Grid realizou reunião para colher informações a serem adicionadas à contribuição da consulta pública sobre medição eletrônica inteligente na baixa tensão. No final de junho, esse mesmo público se reuniu no seminário Parceria Inteligente para Smart Grid, com representantes internacionais, para organizar uma ação conjunta em prol das tecnologias inteligentes.
Todos esses fatos revelam que o setor obteve conquistas na defesa da Smart Grid. Guido Bartels chega a dizer que hoje já não é possível afirmar que um ou outro país está mais avançado ou melhor nas aplicações das redes inteligentes. Segundo ele, em diversos locais do globo, projetos e soluções aplicáveis aos conceitos de Smart Grid estão se desenvolvendo, de acordo com as motivações e características de cada país.
Bartels ainda destaca que as empresas não devem ficar se promovendo individualmente em prol do desenvolvimento de seus produtos, mas se unir para defender a ideia, com proposições para realizar as mudanças regulatórias necessárias às implantações.
A regra continua a mesma daquela constantemente repetida no início das primeiras aplicações: sem viabilidade econômica e remuneração das concessionárias, as tecnologias não se aplicam. O regulador destaca que, se for para onerar demasiadamente a tarifa do consumidor, não haverá suporte para que as redes inteligentes se desenvolvam. “É importante desenvolver sem esquecer o custo-benefício”, manteve o posicionamento expresso à Revista GTD 28, na nossa primeira reportagem sobre Smart Grid, o superintendente de Regulação da Comercialização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Ricardo Vidinich, durante o seminário Parceria Inteligente para Smart Grid.
Bartels, da IBM, no entanto, destaca que a indústria deve liderar o desenvolvimento do mercado para que assim possa, inclusive, impulsionar a economia.
A motivação brasileira
No mundo inteiro, o Smart Grid precisou de uma motivação para ser desenvolvido e implantado. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama disse que 70% das redes daquele país estarão adaptadas às tecnologias inteligentes até 2012, com o objetivo de combate às emissões de CO2. A ideia é que, com mais informações sobre a energia que circulam na rede, seja possível diminuir o consumo ou, até mesmo, coordenar ações para uma geração menos poluente.
Esse e outros motivos ainda mobilizam os setores na Europa (onde quase todos os países já possuem alguma aplicação Smart Grid), Austrália, China e até a Coreia, que acaba de criar uma associação, nos moldes da GridWise Alliance, e com o apoio desta, para avançar nas tecnologias Smart Grid naquele país.
No Brasil, o combate às perdas não técnicas, como o furto de energia, foi um dos fatores que influenciaram alguns dos projetos-piloto. No entanto, essa motivação não se aplica a todo território, fazendo que os tipos de projetos e tecnologias de Smart Grid implantados variem bastante.
No caso do grupo CPFL, por exemplo, que possui oito distribuidoras, o referente a 6,5 milhões de clientes espalhados pelo interior de São Paulo, os conceitos de rede inteligente têm avançado na área de automação de rede. O diretor de Engenharia e Gestão de Ativos da CPFL Energia, Rubens Bruncek Ferreira, explica que a automação levou à redução do custo operacional em 50% desde 1997, quando implantado. Isso aliado à reorganização de processos na concessionária.
Mesmo assim, Ferreira ainda acredita que a linha do desenvolvimento do Smart Grid no Brasil deve seguir por meio da medição eletrônica. “A medição eletrônica será o futuro”, completa ele, que ainda destaca que a CPFL investirá R$320 milhões, de 2009 a 2014, em projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) que focam na melhoria da eficiência energética.
Ferreira é o único representante brasileiro na Global Inteligent Utility Network Coalition (UN Coalition), um grupo internacional de empresas coordenado pela IBM, com o objetivo de acelerar a adoção das soluções Smart Grid globalmente. Segundo ele, os membros do grupo discutem agora os conceitos e os desenhos das tecnologias a serem aplicadas. “Os fabricantes são muitos e não dá para ficar inventando demais. Tem que haver uma certa padronização”, disse sobre a necessidade de focar o desenvolvimento das tecnologias. A próxima reunião do U.N Coallition acontecerá em novembro deste ano.
Em Barreirinhas (MA), onde foi implantado o projeto que leva internet por meio da rede elétrica em junho de 2008, a medição inteligente nas residências é o segundo passo no desenvolvimento de tecnologias Smart Grid no projeto. Segundo o consultor técnico de Vendas da Panasonic no Brasil, Eduardo Kitayama, a intenção é monitorar o consumo para poder reduzi-lo. “Tendo maior consciência de quanto se está utilizando (de energia elétrica), o consumidor gasta menos”, disse.
O projeto com participação das Centrais Elétricas do Maranhão (Cemar), Panasonic, IBM e Landis Gyr deverá apresentar os primeiros resultados em dois meses.
A Light, que tem 80 mil clientes telemedidos, pretende incluir mais 100 mil residências na medição inteligente, em um ano, conforme destacou o superintendente técnico da concessionária, Gustavo Alencar, durante o seminário Parceria Inteligente para Smart Grid.
A empresa foi motivada a usar a medição inteligente aliada à blindagem de rede, para combate às perdas não técnicas e à inadimplência. Em 2009, a Light transformará 1.200km de rede multiplexada de baixa tensão em rede coberta de média tensão.
Aneel busca conhecimento técnico em outros países
O superintendente de Regulação dos Serviços de Distribuição da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Paulo Henrique Lopes, explica que a agência está estudando os conceitos de Smart Grid e buscando competência técnica sobre o tema.
Em abril, a agência realizou uma missão técnica à Itália, Espanha e Portugal para conhecer as experiências daqueles países. A agência ainda enviará uma missão a Portugal e Espanha sobre a integração de fontes renováveis à matriz.
Lopes explicou que a agência está avaliando a viabilização de projetos-piloto no Brasil para aprimorar e desenvolver a aplicação das tecnologias Smart Grid.
Outro representante da Superintendência de Regulação dos Serviços de Distribuição da Aneel, Hugo Lamin, explicou que o assunto tem também que ser analisado pela área de regulação econômica. “Verificamos que, no mundo todo, houve tarifa diferenciada para implementação do Smart Grid”, disse. Ele ainda destacou que a consulta pública sobre medição eletrônica usou um método inovador, na qual as contribuições deveriam responder a determinadas perguntas. Foi a primeira consulta pública da Aneel realizada nesses moldes.
Posicionamentos sobre a aplicação
As funcionalidades da rede inteligente ajudam no gerenciamento das operações de geração, transmissão e distribuição, colaborando para que as concessionárias atinjam as metas de qualidade do serviço prestado. No entanto, o Smart Grid também afeta o consumidor de diversas formas.
Além de poder gerar energia e vender para rede no futuro – por meio da aplicação de painéis solares, por exemplo – os consumidores também poderão ter a opção de usar outras funcionalidades inteligentes ao ter acesso às informações sobre o próprio consumo.
Assim, embora nos eventos e reuniões realizadas os consumidores não estejam representados, vez ou outra são lembrados como agentes importantes na consolidação das tecnologias Smart Grid.
A IBM realizou a pesquisa Lighting the Way, que apontou que 90% dos cinco mil entrevistados em 12 países gostariam de que houvesse um medidor inteligente e ferramentas para gerenciar o uso de energia. No Brasil, a empresa está preparando uma pesquisa similar para identificar o perfil do consumidor brasileiro, conforme já noticiado nesta revista. O método de aplicação e as questões consideradas foram avaliados por especialistas da Escola Politécnica da Universidade Federal de São Paulo (USP) e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. A pesquisa deverá ser iniciada ainda no terceiro trimestre deste ano, segundo o executivo de Soluções do setor de Utilities da IBM, Gadner Vieira.
Já o Fórum Latino Americado de Smart Grid enviou questionários para 1.112 pessoas de universidades, empresas de geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia, associações, fabricantes de equipamentos, analistas, governo, consumidores livres e cativos para opinarem sobre a consulta pública de medição eletrônica.
Foram recebidos 87 questionários, para um prazo de três dias úteis, uma taxa de 7,8% do total dos questionários enviados. Apesar desta taxa, o coordenador do Fórum , Cyro Boccuzzi, considera a porcentagem de respondentes elevada, dado o tempo de resposta.
Um dos pontos de maior destaque da pesquisa foi o posicionamento de que devem ser definidas experimentações práticas para entender o comportamento dos consumidores brasileiros às tarifas e às tecnologias de controle, antes de se estabelecer uma regulamentação sobre a medição inteligente.
No caso da Audiência Pública 010 sobre uso da rede elétrica para transmissão da internet, a discussão fica entre as concessionárias. A minuta da resolução coloca que o serviço deveria ser administrado, definido, operado e mantido por uma terceira concessionária e não pelo distribuidor de energia elétrica. Para defender esse e outros pontos de vista, a Associação Proprietária de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel) e a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) se reuniram, em junho, com o diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner.
“O fato de equipar as redes para explorar a capacidade de transmissão de dados é inerente às concessionárias”, disse o presidente da Aptel, Pedro Jatobá. “Além do mais, estamos prestes a ter uma evolução razoável em função dos conceitos de redes inteligentes, o que aumentará a associação entre telecomunicações e rede elétrica”, completa.
Para o desenvolvimento do Smart Grid, Jatobá defende a elaboração de um projeto estruturante que defina os modelos de tecnologia no País. A Aptel, a Abradee e outros representantes do setor pretendem apresentar um projeto para a Aneel dentro dos próximos meses.
“As tecnologias já estão aí para ficar porque estão disponíveis e são comercializadas. O grande desafio é definir o modelo – esse é um projeto de médio prazo”, disse Jatobá ao exemplificar com o projeto da TV digital, que demorou 10 anos para ser implementado.
Integração das soluções
O responsável mundial de Smart Metering da Siemens, Samuel Staehle, que falou sobre os conceitos de Smart Grid durante o Fórum Abineetec, em junho, destacou que é preciso que as empresas entendam que as tecnologias de redes inteligentes são estratégicas. “Os processos que estão emergindo requerem integração”, disse.
Staehle disse que para esta integração serão necessários sistemas de comunicação, novas interfaces e redefinição dos processos.
No Brasil, Staehle destacou, em entrevista à Revista GTD, que sistemas de automação de subestações, religadores e os sistemas supervisórios SCADA são algumas das tecnologias que estão sendo desenvolvidas e aplicadas, dentro da linha das Smart Grids. Segundo Staehle, a Siemens introduzirá outras tecnologias de Smart Grid no Brasil, “à medida em que os mercados forem se desenvolvendo”.
O diretor de Network Managing Systems da Areva, Ricardo Hering, também acredita que é necessário integrar as soluções já aplicadas, como medidores inteligentes, call center, georreferenciamento etc. Atualmente, a empresa trabalha com um sistema de gestão de rede de distribuição – o Distribuition Management System. No entanto, o sistema ainda não é utilizado por nenhuma concessionária na América Latina, de acordo com Hering.
Segundo ele, a empresa está tentando trazer esse tipo de sistema de integração para o País. “A nível técnico, todos estão bastante convergidos, a dificuldade é demonstrar a viabilidade econômica”, explica ao adicionar que a redução das perdas técnicas impulsionará as aplicações. Nos Estados Unidos, onde a solução é usada, a redução das perdas técnicas foi de 1,5% a 2%.
Hering acredita que os sistemas SCADA aplicados no Brasil, atualmente, ainda são muito básicos. Ele explica que o sistema, apesar de supervisionar diversas atividades, ainda precisa de um módulo adicional, que permita integrar os medidores e todas as tecnologias já disponíveis de forma inteligente.