A culpa do apagão

Belo artigo explorando geração distribuída e rede inteligente. E dando o toque para que o governo acorde quanto à aplicação dessas tecnologias, e crie leis para que permita que a ANEEL regule de forma melhor as aplicações de smart grid e possa ajudar a conduzir o Brasil a um novo patamar em termos de tecnologia em distribuição de energia elétrica.

Fonte: O Globo – 19/11/2009 – DAVID ZYLBERSZTAJN e HENRIQUE SANTOS

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Desde o início do século passado, as sociedades modernas tornaram-se cada vez mais eletrodependentes, seja por conta de uma complexa cirurgia ou a mera volta para casa. Não há distinção entre o matuto do sertão brasileiro ou o cosmopolita na grande cidade, ambos igualmente afetados. Neste momento, no entanto, está em questão o risco de um novo apagão, sob a lembrança dos prejuízos recém-vividos, como milhões de pessoas paradas nas estações do metrô nas grandes cidades ou as vacinas de febre aftosa sendo perdidas nas fazendas de Rondônia. Mas como evitar que tais dissabores se repitam se o problema não for entendido em todas as suas nuances? Será uma falha de planejamento, de construção, de manutenção ou de operação? Será que a nossa engenharia está ultrapassada, o que seria decepcionante, posto termos sido considerados referência mundial nesta área nas décadas recentes? Portanto, é preciso, sim, conhecer os verdadeiros motivos. E, obviamente, açodadas reuniões na Esplanada dos Ministérios não são suficientes para elucidar assunto tão complexo.

A conclusão técnica exigirá a análise de centenas (ou milhares) de registros do comportamento elétrico de variados pontos do Sistema Interligado Nacional (SIN). Paralelamente, a inspeção de equipamentos e linhas, observando pormenores, como se estivéssemos a procurar peças de avião em um oceano.

Há de se dar às instituições do setor elétrico tempo suficiente para responder tecnicamente à sociedade, sem forçá-las a criar desculpas de interesse governamental. O que cabe, então, ao governo? Cabe refletir sobre as políticas públicas adequadas a um novo momento da sociedade brasileira e criar as condições para uma nova regulação e um novo planejamento, adequados às tecnologias do século XXI, seja do lado do sistema de produção de eletricidade, seja do lado do consumo.

O Brasil desenvolveu, a partir do início dos anos 1970, uma intensa integração dos seus sistemas elétricos. O objetivo principal era trazer de regiões distantes a energia gerada por centrais hidrelétricas, universalizando o acesso à eletricidade. Mais tarde, esta vantagem começou a mostrar seus problemas, exigindo fortes investimentos em transmissão para garantir a confiabilidade adequada. Isto ocorreu abandonando a concepção anterior, em que o planejamento e a operação dos sistemas elétricos se baseavam em uma relação próxima entre a geração de energia e seu consumo.

No início, a seleção das cargas era baseada na importância social da mesma. Assim, um programa de corte da carga, visando a estabilizar o sistema, rejeitava consumidores não prioritários e protegia cargas como hospitais, delegacias, semáforos etc. Hoje, continua a existir um esquema de corte de carga, mas a seleção é predominantemente geográfica. Isola-se toda uma região, sem olhar qual tipo de carga está a se atender, privilegiando outras, segundo uma ótica exclusivamente elétrica. Qual a diferença ética em se desligar um hospital em São Paulo ou em uma pequena cidade do interior? Nenhuma. Entretanto, do ponto de vista macro, proteger a grande cidade pode ser mais relevante. Ainda assim, ao alcançar a metrópole, o apagão não diferenciou o metrô de sistemas não prioritários. À distância, o planejamento não tem a sensibilidade social necessária à gestão das cargas. Mas há condições tecnológicas de implantar sistemas tão sofisticados de seleção de cargas dispersos por todo o país?

A mais moderna tecnologia está por todo lado, confiável e descentralizada. Porém limitada no setor elétrico brasileiro. Em muitos países, como no Reino Unido, microturbinas a gás estão espalhadas, gerando eletricidade e calor, em um processo de cogeração, muito eficiente e confiável. Os prédios inteligentes possuem sistemas autônomos de suprimento, pois sua “inteligência” estaria em xeque, caso dependesse exclusivamente do suprimento da rede. Com exceção de São Paulo, onde esta prática está se tornando comum, os consumidores ainda agem de forma passiva. Esta pulverização de pontos de produção de energia pode trazer consigo, se bem utilizada e articulada com uma rede de distribuição inteligente (smart grid), a melhor forma de minimizar os impactos de apagões, como o que ocorreu. Mas, no Brasil, a geração distribuída nunca foi objeto de uma política de incentivo real.

Ainda no governo passado, a política de incentivo a fontes alternativas de geração de energia elétrica, notadamente Pequenas Centrais Hidrelétricas, permitiu um aproveitamento mais racional dos recursos hídricos, de forma dispersa por grande parte do país. Paralelamente, a política de expansão do parque gerador com centrais térmicas a gás promoveu o “espalhamento” da geração, reduzindo a dependência de grandes blocos de energia, vindos de pontos distantes.

Podemos afirmar que a escala do apagão ocorrido pode ser atribuída ao critério centralizador de planejamento, operação e construção do SIN. Isso leva a um sistema de altíssima complexidade e instabilidade, com critérios de corte de carga que não hierarquizam os interesses críticos da sociedade. Se assim continuar, novos apagões poderão acontecer, cada vez mais frequentes e abrangentes. Cabe, pois, alertar que culpados serão aqueles que não perceberem que, aos poucos, o mundo está se tornando mais eficiente energeticamente, exigindo menos energia para a mesma produção de riqueza. De outro lado, nossa sociedade está cada vez mais dependente desta eletricidade, exigindo níveis de confiabilidade e segurança mais altos. Exige-se uma política audaciosa, que venha a conduzir uma nova regulação e planejamento, no sentido de promover a geração distribuída e as redes inteligentes, com foco no consumidor. Redes operadas descentralizadamente, com inteligência embutida e menos dependentes das redes convencionais.

Quando se vislumbra o futuro próximo, se nenhuma atitude for tomada, a culpa de novos apagões será dos governos que não agirem nesse sentido.

DAVID ZYLBERSZTAJN foi secretário de Energia de São Paulo (governo Mario Covas), diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo e é professor da PUC/RJ. AFONSO HENRIQUE SANTOS é professor da Universidade Federal de Itajubá e foi secretário nacional de Energia.

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10.11.2009 – 22h10min a hora em que Thomas Edison falhou

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Por sorte estava eu em pleno voo de São Paulo para Brasília, e se não fossem as nuvens teria visto o sudeste se apagar lá das alturas. Aconteceu um dos maiores blecautes que o Brasil já viu no último dia 10 de novembro, com início às 22h10min e desligando 18 estados e o Paraguai. Poderia uma rede inteligente evitar que um distúrbio dessa magnitude acontecesse no Brasil?

A resposta é sim, poderia. Como vi nas várias palestras do II Fórum Latino Americano de Smart Grid, do qual participei em São Paulo nos últimos dias 09 e 10 de novembro, vários palestrantes norte-americanos citaram o blecaute de 2003, ocorrido no leste dos Estados Unidos, como sendo um dos eventos precursores da atual campanha de Barak Obama para incentivar o Smart Grid nos Estados Unidos.

Thomas EdisonMas vamos analisar o que pode realmente ter ocorrido e porque uma rede inteligente poderia se não evitar, pelo menos mitigar tal situação. Conforme noticiário geral o distúrbio teve origem em fenômenos atmosféricos nas linhas que ligam Itaipu ao sistema sudeste, como bem sei dos meus tempos no Centro de Operação da CELG que o sistema Itaipu não apenas alimenta a maior parte da carga de todo o Sul e Sudeste do Brasil, como também regula a frequência do sistema na referência de 60 Hz. Pois bem, dentro dos conceitos originais de Thomas Edison e de George Westinghouse, um sistema de potência é constituído de um modelo unidirecional de geração, transmissão, distribuição e consumo da energia elétrica, nessa ordem, sendo assim, interrompendo-se qualquer elo dessa cadeia, cessa-se o fluxo de corrente. Se eu aciono o interruptor na parede, a lâmpada se apaga, se uma linha de transmissão é interrompida, a distribuição fica sem fluxo de energia e toda a carga se desliga.

Esse modelo é antigo, com precisamente 130 anos, desde que Edson fundou a Electric Light Company em Nova York em 1879 e subsiste até hoje, com alguma evolução, mas ainda o mesmo modelo idealizado por ele. Então é de se esperar que, por mais que a previsão do tempo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) funcione, por mais que o ONS (Operador Nacional do Sistema) opere bem o sistema, e por mais que se invistam em novas e grandes usinas hidrelétricas, o problema da interrupção de qualquer elo na cadeia do sistema de potência irá causar blecaute.

E o que muda com as redes inteligentes é uma coisa bem simples, o modelo deixa de ser unidirecional e passa a ser multidirecional. A medição inteligente, juntamente com o controle inteligente de um centro de operação, permite que sejam instaladas as já bem conhecidas e ainda não difundidas gerações distribuídas, ou seja, cada consumidor poderá ter a possibilidade de ter em casa sua própria fonte geradora, além disso, renovável, utilizando-se do Sol, dos ventos e até mesmo de biomassa no campo para gerar sua energia elétrica, e com sobra suficiente para retornar uma parte para o sistema de potência, que passa assim a ter não apenas uma fonte mas várias, tendo suas perdas reduzidas e podendo destinar as grandes produções de potência para as cargas industriais e energo-intensivas.

Tendo o consumidor na sua casa sua própria geração e seu carro elétrico, poderá esse último, em casos como o blecaute do dia 10 de novembro, alimentar a partir da sua bateria a carga de toda uma casa pelas quatro horas em que durou o desligamento. Como ficou claro ao final do II Fórum Latino Americano de Smart Grid, é preciso, a exemplo do que fez Obama, que as redes inteligentes se tornem um programa também do governo brasileiro.

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