Fonte: Brasil Econômico Digital – Ed. 05.01.2010

Estratégia das multinacionais é fornecer novas tecnologias de leitura para consumidores corporativos e concessionárias.
O uso de novas tecnologias em energia, desde a geração até o consumo, é ainda muito incipiente no Brasil — não são poucos os locais onde as estruturas usadas atualmente existem há quatro ou mais décadas. Mas a discussão, e novos investimentos, começaram a surgir e despertam a atenção de fornecedoras de equipamentos e soluções mais modernas.
De olho nessa tendência, empresas como a operadora de telefonia TIM e a General Electric estão desenvolvendo novas tecnologias e serviços.
No caso da TIM, a empresa reformula sua área de atendimento a grandes clientes — onde estão as concessionárias de energia. A subsidiária da companhia italiana está em contato com a matriz para trazer ao país soluções que já são utilizadas na Europa. Para isso criou há pouco mais de um mês uma nova área, formada por 40 engenheiros, cuja função é justamente desenvolver novas plataformas e negócios voltados para as redes de energia, presentes na carteira de clientes da TIM no Brasil desde 2004, nos serviços que incluem soluções de telemetria (método que possibilita leitura de dados a distância).
Isso significa que, nos domicílios e demais pontos onde são instalados os chips fornecidos pela TIM, a empresa de energia pode acompanhar os números de consumo daquele usuário diretamente de sua central, em tempo real e de forma detalhada.
Não é mais necessário enviar, todo final de mês, um técnico ao local para recolher o consumo mensal de cada um dos relógios de medição. Eletropaulo (SP), Cemig (MG), Copel (PR) e Celesc (SC) são alguma das concessionárias que já utilizaram o sistema de telemetria da TIM.
Hoje a operadora fornece o chip com o serviço celular, mas a ideia é passar a oferecer a solução completa para toda a cadeia de medição, que vai desde o chip, que é instalado nos medidores e registra os dados, até a plataforma responsável por transferir estes dados para a central da concessionária.
“Na Europa, existe muita coisa nesse sentido. Na TIM Itália já começamos a trabalhar com a plataforma completa, e a tendência é trazer isso para o Brasil em breve. Não queremos fazer só a interconexão, queremos oferecer o serviço todo” explica Leonardo Queiroz, diretor de negócios para grandes clientes da TIM.
Multinacionais atentas
A TIM é apenas uma das muitas empresas que estão de olho no ainda pequeno mas promissor mercado brasileiro de automatização das redes elétricas.
General Electric (GE), Siemens e Alstom são outros exemplos de empresas que estão se mexendo para trazer ao Brasil tecnologias utilizadas fora. Há também aquelas que veem no novo nicho uma oportunidade justamente de entrar no país – caso da americana Silver Springer, uma das líderes nos Estados Unidos em sistemas para redes digitais de energia.
De conta detalhada a controle do ar-condicionado
O que o sistema elétrico está começando a fazer é mais ou menos o que já fazem as empresas de telefonia hoje — por um sistema interligado, as companhias podem saber cada detalhe do consumo, minuto a minuto, e controlá-lo a distância, sem precisar enviar um técnico ao local. Em uma rede automatizada de distribuição e leitura de energia, concessionária e consumidor passam a ter acesso a uma série de regalias. É possível, por exemplo, que a conta de luz chegue detalhada aos domicílios, indicando os horários em que o consumo é mais alto e, em alguns casos, a discriminação deste consumo por equipamento. É a mesma ferramenta que permite descontos nas tarifas em horários alternativos, um dos planos da Aneel para incetivar o consumo fora da faixa de pico, das 18h às 21h. Em alguns casos, como já acontece com clientes industriais, a concessionária é autorizada pelo usuário a regular, da central, a temperatura do ar condicionado, reduzindo o gasto na conta final. Para o Brasil, a maior vantagem está no controle dos “gatos”: com a rede automatizada, o desvio de energia pode ser detectado e combatido na mesma hora pelo sistema. Hoje, a empresa só sabe se os níveis de consumo estão normalizados com a a leitura mensal manual concluída.
Medidores de luz entram na era digital
Maior parte dos 62 milhões de relógios do país ainda é analógica e deve ser trocada.
As tecnologias de comunicação de redes que vêm sendo desenvolvidas e disponibilizadas à indústria de energia permite uma série de melhorias que vão desde o detalhamento da conta de luz até o controle a distância do ar condicionado de uma casa ou de uma empresa.
Essa interligação da rede, no entanto, depende de um passo básico que ainda falta ao Brasil: o relógio de medição dos usuários deve ser digital. Muito pouco dos 62 milhões de pontos ligados à rede brasileira hoje foram trocados. Eles estão, em maior parte, concentrados em consumidores industriais e comerciais. A esmagadora maioria ainda é composta pelos relógios de ponteiro, muitos deles com mais de 30 anos de existência, que dão apenas uma amostragem do consumo nomês.
Para a General Electric (GE), este potencial é uma das grandes apostas pelos próximos anos no Brasil. Fabricante de equipamentos elétricos, a empresa aguarda apenas a posição da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para começar a trazer medidores de energia digital em larga escala para o país.
“Nesse primeiro momento traremos os equipamentos basicamente dos Estados Unidos e da China”, explicou o diretor de marketing da GE Energy na América Latina, Marcelo Prado. “Mas, mais para frente, havendo escala, com certeza teremos interesse em fabricar no Brasil. Haverá uma corrida de empresas para cá”, continua.
A Aneel tem atualmente em estudo a criação de um marco regulatório para o setor que determine a troca gradativa de todos os medidores analógicos por digitais, em um período entre dez e 20 anos. O prazo é esticado para que os investimentos não sejam feitos todos de uma vez e, dessa forma, pressionem as tarifas para cima.
“O grande investimento no Brasil será na troca dos medidores. São 62 milhões de pontos hoje no país, a um custo estimado de R$ 200 cada (valor do relógio digital). Mas esse investimento não será feito enquanto a Aneel não colocar sua posição”, diz Prado. “Ela que irá determinar o ritmo das trocas e as características que deverão ter os equipamentos.”
EMPRESAS ATENTAS
1- Nova divisão da TIM – A operadora celular está reformulando a área voltada para grandes clientes, para poder fornecer a solução completa para leitura e transmissão de dados, o que já faz na Itália.
2- GE quer vender medidores digitais ao mercado nacional – O mercado brasileiro tem um potencial enorme de crescimento. São 62 milhões de pontos no Brasil, e o preço médio para cada medidor, calcula a empresa, é de R$ 200.
3- Economia e precisão para as concessionárias – Ao trabalhar com uma rede automatizada, as concessionárias têm maior controle do consumo e mais precisão de dados. No Brasil, onde o “gato” é frequente, é uma forma de combate-lo com rapidez.