Especialistas veem obtásculos para implantação da smart grid no Brasil

Fonte: Jornal da Energia - 23.08.2010 Por Paulo Silva Junior

Em cerca de um ano e meio a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pretende dar início a troca dos mais de 60 milhões de medidores eletromecânicos em funcionamento no País por aparelhos automatizados e mais inteligentes. Porém, apesar do assunto estar sempre na pauta do setor elétrico, o conceito de smart grids ainda vive um cenário de dúvidas e indefinições.

“Estamos no baile, todos bem vestidos, mas ninguém dança. Qual o volume de negócios envolvendo smart grids? Todos falam que estão em estado de espera. Vão esperar a moça chamar para dançar?”, provocou o professor José Sidnei Colombo Martini, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, durante a abertura do III Fórum Latino-Americano de Smart Grid, realizado em São Paulo, nesta segunda-feira (23/08).

Durante o debate, membros de concessionárias, agências reguladoras, associações e acadêmicos teceram opiniões sobre as lacunas que emperram a tecnologia. Martini, inclusive, iniciou sua apresentação com constatações sobre questões pendentes do mesmo evento realizado no ano passado. “Não há padrões estabelecidos, os recursos financeiros e regulatórios atuais não motivam a mudança, as perspectivas de ganhos em iniciativas isoladas não são atrativas, a quantidade de engenheiros não será suficiente”, listou.

A mão-de-obra também foi um tópico bastante abordado pelos debatedores. Martini ressaltou que os cursos de eletrotécnica precisam, cada vez mais, terem a companhia de temas relacionados à computação e telecomunicações. O professor Djalma Mosqueira Falcão do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), compartilhou da mesma preocupação.

“A formação precisa ter a base da engenharia elétrica e mais uma série de coisas que nem todas as faculdades mostram. Não acho que é o caso de se criar uma graduação para smart grids, mas flexibilizar o currículo, permitindo que o aluno curse algumas matérias. O momento é da especialização. Um engenheiro de telecomunicações, por exemplo, nos interessa”, disse.

Já o presidente do CPqD, instituição focada na inovação das tecnologias da informação, Hélio Marcos Machado Graciosa, acredita ainda que as conversas em torno das smart grids remetem a um novo paradigma. “O sistema agora evolui adicionando a eficiência. Temos que trabalhar sobre essa nova ideia do cliente ativo, do desenvolvimento de tecnologia que possa agregar valor e atender aos requisitos locais”, afirmou.

Representante da Aneel na mesa composta pelos pesquisadores, o superintendente de pesquisa e desenvolvimento e eficiência energética, Máximo Luiz Pompermayer, também levantou questões ainda sem resposta. “Temos dúvidas sobre quais são os melhores mecanismos para fomentar essa migração. Temos muito espaço ainda para pesquisa e desenvolvimento. Ainda temos dúvidas sobre como gerenciar isso”, admitiu.

“Fica todo mundo na dúvida se vai ou não vai, se investe ou não. A ideia do plano nacional para o assunto ajudaria”, completou Graciosa, questionado sobre a sintonia entre ganhos financeiros das concessionárias e a real necessidade de implantação dos novos medidores.

Início da migração e padronização

A migração dos medidores pode começar em 2011, segundo estimou na semana passada o diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner. Mas o superintendente de regulação da distribuição da agência, Paulo Silvestri Lopes, acredita que o início da operação pode demorar um pouco mais. “Talvez em 2012. Acho difícil que comece em menos de 18 meses”, disse durante o evento.

Um dos itens básicos para o início do processo de substituição dos aparelhos é a padronização dos medidores. Segundo Silvestri, fabricantes nacionais já estão se mobilizando na Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) pela criação de um protocolo brasileiro. O “protocolo”, de acordo com o especialista, é uma exigência da Aneel. Ele deve ser público, ou seja, permitir que o cliente troque de medidor em caso de problema ou insatisfação.

Entretanto, para o presidente do Fórum, Cyro Vicente Boccuzzi, a padronização brasileira tem uma ressalva. “É importante que os fabricantes nacionais estejam se mexendo, mas também não se pode fechar para os outros países. Imagine um celular que só faça ligação para o Brasil. Não adianta. Tem de ser algo que se relacione como um todo”, sustentou o especialista, citando a interoperabilidade, palavra que representa exatamente essa capacidade de comunicação entre os sistemas – que, apesar de ter difícil pronúncia, foi talvez a mais ouvida nas reflexões feitas no encontro.

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Inteligência artificial

Fonte: Istoé Dinheiro – 20.08.2010 Por Érico Polo

Alta tensão: atualmente, cerca de 50% da energia elétrica brasileira está sob a responsabillidade de sistemas e equipamentos da Siemens

Em um futuro não muito distante, qualquer pessoa poderá acessar o medidor de luz de sua casa, por meio da internet, e programar a melhor hora – quando o preço da energia estiver mais baixo, de preferência – para ligar a máquina de lavar roupas.

E essa é somente uma das facilidades possíveis com o medidor eletrônico que está sendo projetado pela Siemens, gigante alemã com receita global de E 76 bilhões. O desenvolvimento do equipamento é apenas uma pequena parte de um negócio muito mais amplo, e que está na mira da companhia desde 2000, conhecido pelo nome de smart grid.

Essa tecnologia permite que os consumidores se comuniquem com as distribuidoras de energia. Para as concessionárias, o equipamento pode representar um golpe mortal nos furtos de energia, os famosos gatos, que consomem perto de 5% do fornecimento de eletricidade.

Só a modernização das redes que ligam as distribuidoras às residências deve movimentar cerca de R$ 20 bilhões. Ainda não está definido, contudo, se é o consumidor ou a concessionária que vai arcar com esse custo. Mesmo assim, a Siemens já começou a se articular para conquistar uma fatia da bolada que o país tem de gastar com a modernização do seu sistema de energia elétrica.

Uma conta que, com o smart grid, pode alcançar R$ 100 bilhões, diz Cyro Boccuzzi, da consultoria ECOee.Para começar, no ano passado a Siemens ganhou um contrato, no valor de R$ 38 milhões, para desenvolver e instalar o novo sistema de gerenciamento utilizado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), entidade que coordena os serviços de geração e transmissão de energia.

“É um passo importante para a Siemens, que já tem presença significativa nesse setor. Hoje, equipamentos e softwares com a nossa marca são responsáveis por 50% da energia elétrica gerada no País”, diz Guilherme Mendonça, diretor de automação da Siemens do Brasil, à DINHEIRO.

Assim, caberá à companhia reforçar a inteligência da estrutura da ONS. A explicação para isso é que os equipamentos e softwares utilizados atualmente não suportam a entrada em operação das novas usinas (hidrelétricas, termelétricas e eólicas) previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Além dessa segurança estrutural, a Siemens espera, no futuro, vender a tecnologia associada ao smart grid como uma ferramenta de combate ao desperdício de energia nos 63 milhões de clientes residenciais das distribuidoras de eletricidade.

Com isso, eles poderão acompanhar seu nível de consumo, escolhendo a melhor hora para ligar equipamentos que gastam mais, como o chuveiro elétrico e a secadora de roupas. Ou seja, uma administração de tarifas, exatamente como se pode fazer na telefonia. “Os consumidores terão uma noção melhor do preço pago pela energia e, com isso, o País poderá evitar um desperdício da ordem de 15%”, avalia João Carlos Mello, presidente da consultoria Andrade & Canellas.

O smart grid se insere na linha dos produtos e serviços com viés de sustentabilidade, itens estratégicos para o futuro da Siemens. Em 2009, esse nicho rendeu E 23 bilhões, em nível global, à corporação alemã. Mesmo antes da regulamentação do funcionamento das redes inteligentes no Brasil, a subsidiária já começou a investir em pesquisa e infraestrutura.

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As novas tecnologias e as demandas do mundo atual

Fonte: Portal EnergiaHoje – 05.07.2010 Por Cyro Vicente Boccuzzi*

A importância das tecnologias de informação e de comunicação (TIC) tem aumentando de maneira exponencial nos últimos anos. Hoje, elas estão presentes em todas as veias da vida cotidiana. Sem TIC, os governos não podem funcionar corretamente, hospitais e fábricas não podem operar e salários não podem ser pagos, apenas para dar alguns exemplos. Essas tecnologias desempenham um papel fundamental na sociedade moderna e contribuem de forma significativa para a resolução de importantes desafios para uma sociedade que quer ser mais próspera, internacionalmente competitiva, saudável, segura e sustentável. Como o eixo de “inovação”, essas tecnologias são fatores importantes para todos os setores dentro de uma economia do conhecimento, na medida em que possibilitam a transferência de informações.

O motor das TIC, entretanto, é a energia, particularmente a eletricidade. Assim, em uma sociedade cujo estilo de vida é fortemente dependente dela, desenvolver tecnologias que permitam a geração e distribuição de energia de forma barata e limpa e que garantam seu fornecimento ao longo do tempo com a máxima eficiência é uma questão de primeira ordem. As smart grids vêm, justamente, atender a esses pontos, representando o que há de mais moderno no setor elétrico.

Atualmente, Europa e América do Norte já iniciaram a instalação de redes inteligentes de energia, com o objetivo de melhorar a eficiência no seu uso final e atender à desregulamentação dos mercados de baixa tensão. Esse processo inclui a implementação de geração renovável em pequena escala, como telhados solares conectados às redes, de forma a fazer frente às metas de reduções de emissões de gás carbônico. Mas essas preocupações não se resumem a essas regiões: a intensa participação de gente do mundo inteiro – mais de 4 mil profissionais, de 90 países – do Congresso WCIT 2010 (www.wcit2010.com), realizado no final de maio, na Holanda, mostra que a conscientização sobre a importância do assunto é cada vez maior em toda a parte. Mais do que isso, seu foco tem sido ampliado para a integração com outros serviços públicos como água, segurança, mobilidade, governo, saúde, ambiente, ocupação de espaços urbanos etc.

Como resultado do encontro, foi publicada a Declaração de Amsterdã, documento que propõe uma série de medidas em diversos níveis da sociedade na busca de uma melhor aplicação das novas tecnologias de modo a favorecer o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável, a diminuição do consumo de energia, o aumento da eficiência energética, a redução de emissões de gases de efeito estufa, a melhoria na qualidade de vida e o melhor aproveitamento das oportunidades geradas pela globalização, além da integração desses benefícios com outras necessidades e serviços públicos.

No Brasil, essas discussões têm avançado rapidamente, uma vez que tanto o governo como a iniciativa privada já perceberam a importância de criarem capacitação tecnológica nessas novas áreas que, em breve, estarão dominando a área energética. Algumas ações já estão em curso. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tomou, no ano passado, iniciativas importantes no sentido de modernização da infraestrutura de eletricidade no país, incluindo a realização de consulta pública sobre medição eletrônica, a regulamentação do uso da comunicação pela rede elétrica e o início de um estudo sobre melhorias na metodologia de cálculo de tarifas de eletricidade. Outro fato que merece destaque foi a criação, em abril deste ano, de um grupo coordenado pelo Ministério da Minas e Energia (MME) especificamente para estudar as tecnologias de redes elétricas inteligentes no Brasil. Além disso, o MME está dando ênfase ao Plano Nacional de Eficiência Energética (PNEF). Prometido para o final do ano, o PNEF deve descrever a estratégia a ser adotada para garantir os 10% de redução de consumo elétrico por meio do aumento da eficiência energética, como previsto no Plano Nacional de Energia 2030.

Entre os agentes consumidores, os projetos desenvolvidos se concentram, de uma maneira geral, em redução de custos pelo acesso ao mercado livre e na busca de eficiência energética, seja através de substituição de equipamentos ou pela modulação da carga e monitoramento do consumo. Em alguns casos, tem havido o interesse crescente por estudos de co-geração de energia, que em nosso país, por questões tributárias, tem retorno maior em várias aplicações do que na maioria dos países do mundo. Nas distribuidoras, o foco claramente é na redução de perdas comerciais e de custos operacionais, principalmente por meio da modernização dos ativos e crescente instalação de medidores eletrônicos nos clientes de baixa tensão.

O cenário energético nacional está avançando de forma muito rápida. Além das iniciativas já enumeradas, todas as empresas de energia estão estudando o tema e já foram feitos projetos bastante significativos. Esses avanços serão objeto de apresentação, discussão e debate, com líderes do mundo inteiro, do III Fórum Latino Americano de Smart Grid, que acontece nos dias 23 e 24 de agosto, em São Paulo. Este pioneiro congresso, que acontece simultaneamente a uma exposição de fabricantes, é parte do circuito mundial de eventos sobre o tema e trará os principais executivos, líderes governamentais e acadêmicos da área. A continuidade do desenvolvimento das TIC e dos sistemas elétricos para atendê-las exigem a amplo engajamento e colaboração global. Junto com as experiências já desenvolvidas por aqui, esse evento é uma mostra de que o Brasil e a América Latina estão plenamente inseridos nesse processo.

*Cyro Vicente Boccuzzi é presidente da ECOee e do Fórum Latino Americano de Smart Grid.

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Smart grid é o futuro certo da distribuição de energia elétrica?

Fonte: Revista O Setor Elétrico – Edição 50, Março de 2010

Autoria: Juarez Guerra, Mariângela Rino Pedrosa, Cyro Boccuzzi, Roberto Barbieri e Daniel Senna Guimarães

Duas características inerentes ao setor elétrico brasileiro podem favorecer e acelerar a implantação do smart grid no País. A primeira refere-se ao crescente aumento da demanda, que causa um risco maior de falta de energia (apagões); o segundo diz respeito ao roubo de energia, o conhecido “gato”. O conceito de smart grid consiste na implantação de medidores inteligentes que evitam fraudes e permitem que as duas pontas – concessionárias e consumidores – tenham mais autonomia para administrar sua oferta/consumo e informações em tempo real.

Além disso, o conceito instalado deve promover o uso racional da energia elétrica, já que apresenta mais ferramentas de controle, e, consequentemente, ocasiona redução do consumo de energia elétrica e, para os consumidores, diminuição também da conta de energia no fim do mês. A contrapartida é que sua implantação demanda altos investimentos e, no caso do Brasil, ainda falta regulamentação.

Smart grid é o futuro certo da distribuição de energia elétrica?

Daniel Senna Guimarães: Gestor de implantação do Projeto Cidades do Futuro da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig)

Uma tecnologia estratégica e que deve ser avaliada

As práticas adotadas para implantação da arquitetura smart grid (redes inteligentes de energia) e os resultados alcançados são estratégicos e de interesse de diversas partes interessadas, às quais podemos incluir, sem se limitar, as concessionárias de energia elétrica, os reguladores, os consumidores, o poder público, os fornecedores, as instituições de pesquisa, os agentes de desenvolvimento e os financiadores.

Para que o conceito de redes inteligentes de energia seja consolidado no Brasil, diversos aspectos devem ser discutidos e avaliados.

Em um primeiro momento, devem ser identificados os motivadores para adoção da arquitetura smart grid e que podem ser diferentes dependendo da região de implantação, regulamentação do setor, concessionária, sistema elétrico e fontes de energia disponíveis e exploráveis.

As tecnologias aplicáveis à adoção da arquitetura smart grid devem também ser identificadas, avaliadas e, se necessário, desenvolvidas. Um desafio que se coloca é a compatibilização das funcionalidades requeridas, a interoperabilidade entre equipamentos, os investimentos necessários e o impacto nas tarifas cobradas do consumidor e nos processos das concessionárias. Além disso, as competências e capacitações requeridas da força de trabalho devem ser reavaliadas.

Outro aspecto a ser avaliado diz respeito ao fato de a arquitetura smart grid facilitar a participação do consumidor no mercado de energia elétrica, a partir de uma maior interação com as concessionárias, tornando possível a disponibilização de uma nova era de serviços integrados, maior controle da demanda e da possibilidade de ele ser, também, um produtor. Nesse contexto, devem ser avaliados, principalmente, os impactos no planejamento, a expansão e a operação das redes e a estrutura tarifária a ser adotada.

Finalmente, impõem-se às partes interessadas o desafio de se definir uma arquitetura de redes inteligentes de energia que esteja adequada à realidade do setor elétrico brasileiro e aderente às necessidades e à disposição das partes interessadas em arcar com os incentivos, investimentos e custos adicionais de sua implantação.

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Cyro Boccuzzi: Fundador e CEO da ECOee, empresa focada em gestão e tecnologia de energia. Presidente do Fórum Latino Americano de Smart Grid

Melhor aproveitamento da infraestrutura

Seguramente smart grid é o futuro da distribuição porque reúne os avanços tecnológicos nas áreas de tecnologia de informação ao mundo da energia, em favor das melhores práticas em termos econômicos e ambientais. Isso principalmente porque possibilita um aproveitamento mais adequado da infraestrutura existente e estimula o aumento da eficiência energética no consumo.

Na verdade, o modelo vai além de mudanças na distribuição, abrangendo também os sistemas de geração e transmissão. Em linhas gerais, prevê o uso de sistemas de geração de energia local em pequena escala e de gerenciamento do consumo. Os sistemas de microgeração envolvem o uso de pequenos geradores a gás, energia solar e até mesmo pequenas turbinas eólicas para abastecer residências, condomínios ou empresas. Além de garantirem o fornecimento de eletricidade, podem, dependendo da tecnologia usada, fornecer outras utilidades, como água quente e ar refrigerado.

Paralelamente, os sistemas eletrônicos de gerenciamento do consumo possibilitam o uso mais eficiente possível da energia, atendendo a prioridades definidas pelos usuários. Além disso, a energia excedente produzida pode ser fornecida ao restante da rede, a preços de mercado.

A implantação de sistemas de medição eletrônica em todos os consumidores também vai permitir a redução de perdas e o melhor gerenciamento do consumo. Isso porque torna possível a criação de uma sistemática diferenciada para cobrança de tarifas – mais baratas nos horários de menor consumo e superiores nos horários de maior. Tal mudança estimularia os usuários a eventualmente modificarem seus hábitos, reduzindo ou até mesmo eliminando o horário de pico e garantindo o aproveitamento mais eficiente da infraestrutura disponível.

Por fim, a instalação de geradores mais próximos dos centros de carga reduz custos com transmissão e aumenta a segurança do abastecimento.

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Juarez Guerra: Engenheiro eletricista e diretor da Finder Componentes

Conscientização do usuário

Inúmeros países já começaram a implantar Smart Grid e já existem até Smart Cities, que são cidades inteiras que usam essa tecnologia. Entretanto, isso ainda está muito longe de se tornar realidade no Brasil, pois ainda existe uma distância muito grande entre as concessionárias e os usuários. O principal entrave é a conscientização dos consumidores em todos os níveis (industriais, comerciais e residenciais), porque não é suficiente apenas normalizar e trocar os medidores tradicionais pelos inteligentes sem que o usuário saiba para que ele serve. O consumidor tem seu potencial de uso limitado e precisa conhecer a tecnologia para usufruir o máximo possível dela, usá-la para gerenciar o consumo da energia, aliando a eficiência energética aos benefícios consequentes ao meio ambiente. É preciso criar políticas para mostrar ao consumidor quais serão os benefícios dessa tecnologia.

Para quem gera, transmite e distribui energia as vantagens são muito mais conhecidas e chegarão muito mais rápido. Para as concessionárias, este é um ótimo negócio, pois poderão ter maior controle de perda comercial, que é um dos principais problemas no fornecimento de energia. Em relação aos consumidores, as novas instalações poderão usufruir do Smart Grid mais rapidamente, considerando que os engenheiros eletricistas poderão prever a instalação com automação predial ou pré-automação para receber os novos medidores. Esta é uma tecnologia disruptiva, ou seja, muda todo o conceito e a cultura do uso da energia elétrica. O grande desafio é transferir esta nova tecnologia para o usuário final para que ele possa economizar e usufruir de seus benefícios.

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Mariângela Rino Pedrosa: Gerente de mercado do setor elétrico do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD)

Redução de perdas e confiabilidade

O smart grid é, sim, o futuro da distribuição. Sua aplicação em larga escala deve permitir a evolução de todos os processos de operação, manutenção e comercialização de energia, além de oferecer soluções práticas para se atender à crescente demanda por energia, com maior qualidade e uso de forma mais eficiente. No momento, discutem-se diversas possibilidades tecnológicas e é preciso compreendê-las para que se possam definir referências compatíveis com a nossa realidade, que permitam a evolução sistêmica e tecnológica da rede. Uma primeira grande onda – e mais visível – dessa evolução está na troca dos medidores analógicos por equipamentos digitais, que vai possibilitar maior integração entre cliente e concessionária, um dos pilares do smart grid.

As motivações para a adoção do smart grid na Europa e nos Estados Unidos são diferentes das brasileiras. Nossas concessionárias começam a entender como obter valor a partir dessa evolução tecnológica. No Brasil, os requisitos estão focados na redução de perdas não técnicas, no aumento da confiabilidade e qualidade do sistema, na redução de custos operacionais, na otimização dos ativos e na viabilização de novas modalidades tarifárias, com consequente mudança nos hábitos de consumo.

Nesse contexto, a definição de padrões, interoperabilidade e intercambiabilidade dos medidores, a infraestrutura de comunicação confiável, segura e suportando múltiplas aplicações, a estrutura regulatória e inclusão do consumidor são quesitos que precisam ser discutidos e validados com todos os agentes envolvidos.

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Roberto Barbieri: Assessor técnico da área de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee)

Novos parâmetros de qualidade

O futuro da distribuição de energia elétrica é o smart grid porque não há alternativa para a rede elétrica se quisermos que ela evolua do serviço básico de fornecimento para uma plataforma mais ampla de serviços. A rede atual serve para a distribuidora levar eletricidade aos consumidores, com tensão e frequência adequados, com limites máximos para tempo e número de vezes em que há interrupção. Para isso, a rede elétrica atual é tecnologicamente suficiente dentro de padrões internacionais.

Entretanto, o futuro que se avizinha para o setor elétrico e os desafios técnicos só poderão ser enfrentados com uma rede inteligente. Com o smart grid, a distribuição será dinâmica e baseada nos elétrons que circularão na velocidade da luz. Por outro lado, os medidores inteligentes (smart metering) já estão a caminho. Sob coordenação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), fabricantes, distribuidoras e os órgãos reguladores, estão trabalhando no desenvolvimento de equipamentos adequados à realidade brasileira e na forma como será feita a troca do parque de medição atual.

Os medidores inteligentes são o alicerce do smart grid. Com eles poderemos ter, agregados ao fornecimento de eletricidade, novas tarifas, novos parâmetros de qualidade do serviço, controle de cargas e outras funcionalidades. Novos serviços, como a comunicação de dados pela linha elétrica, hoje autorizada, mas desconhecida, serão amplamente difundidos. Novas soluções, como a geração distribuída, veículos elétricos e compartilhamento da telemedição, são promessas de hoje, viáveis em alguns anos.

Quando a rede elétrica tiver que conviver com cargas pontuais não fixas, como os veículos elétricos, ou com consumidores que exportam eletricidade, as instalações atuais não serão suficientes. Só uma rede inteligente, com comunicação bidirecional, automação, controle e gestão de seus ativos, com supervisão integrada poderá suportar todos esses usos. Esse caminho é inexorável. As perguntas que restam são: quando chegaremos a ela e de que forma será o caminho até ela?

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III Fórum Latino – Americano de Smart Grid

Fonte: RPM Brasil

Para fornecer subsídios aos profissionais que atuam no mercado de energia da América Latina (concessionárias, grandes consumidores e produtores de energia, governos, agências reguladoras, fabricantes de equipamentos, provedores de sistemas e soluções de medição, controle, automação e entidades de desenvolvimento de P&D) a encontrar soluções empresariais integradas e definitivas na busca do uso eficiente de energia e a busca de financiamento apropriado, a ECOee e a RPM Brasil promovem, em sua 3ª edição, o evento SMART GRID FÓRUM/2010 – III Fórum Latino – Americano de Smart Grid nos dias 23 e 24 de agosto de 2010, no Novotel Jaraguá São Paulo Conventions, em São Paulo, SP – Brasil. O evento de 2010 terá como pano de fundo o tema “Passando da Teoria para a Prática e Avançando Rápido no Brasil e na América Latina”.

A edição de 2009 do evento reuniu as maiores autoridades mundiais sobre o assunto, contando com a presença de 46 palestrantes, sendo 16 internacionais, com 12 empresas patrocinadoras e 27 entidades apoiadoras das mais representativas do segmento de energia, destacando-se 6 internacionais. Contou com 250 congressistas que participaram da conferência e outros 270 que visitaram a exposição, o que demonstrou o grande interesse e necessidade de articulação e desenvolvimento nessa área no Brasil e em toda a América Latina.

O objetivo maior do evento é o de monitorar o progresso tecnológico mundial na área de smart grid, sintetizar resultados obtidos e articular ações para criar condições de implementação de tecnologias. Essa articulação envolve mobilização dos provedores de solução, empresas de energia, dos agentes de regulação e de política governamental, dos agentes financeiros, consumidores e da sociedade em geral.

Conselho Consultivo

Dado o nível de interesse demonstrado pelos participantes do primeiro evento realizado na América Latina sobre o tema em 2008, o Fórum passou a ser mantido operante em caráter permanente, objetivando, a troca aberta, periódica e sistemática de informações, e a preparação do evento anual, objetivando:

  • Implementar um conjunto inovador de tecnologias;
  • Reinventar a infra-estrutura da indústria para suportar a inovação;
  • Construir e comunicar a visão para catalisar a transformação.

Já contando com a massiva adesão de profissionais de energia da região, o Fórum Latino-Americano de Smart Grid objetiva alinhar agentes públicos e privados em torno de uma visão compartilhada. A visão de um sistema elétrico que integra as infra-estruturas, processos, componentes, informação e estrutura de mercado de tal forma que a energia possa ser gerada, distribuída e consumida mais eficientemente e com custos efetivos; possibilitando um sistema de energia mais resiliente, seguro e confiável. O objetivo maior do Fórum é monitorar o progresso tecnológico mundial na área de smart grid, sintetizar resultados obtidos e articular ações para o atingimento da visão proposta, objetivando criar condições de implementação de implementação de tecnologias. Essa articulação envolve mobilização dos provedores de solução, empresas de energia, dos agentes de regulação e de política governamental, dos agentes financeiros, consumidores e da sociedade em geral.

Fazem parte do Conselho do Forum:

- Cyro Vicente Boccuzzi, Presidente, ECOEE

- David A. M. Waltenberg, Sócio Fundador, ADVOCACIA WALTENBERG

- Denys Claudio Cruz de Souza, Superintendente de Desenv. e Eng. da Distribuição

- Eduardo José Bernini, Presidente, TEMPO GIUSTO

- Ester Beatriz Fandiño, Secretaria Executiva, CACIER, ARGENTINA

- José Sidnei Colombo Martini, Professor, Poli – USP

- Julio M. Rodrigues, CEO, RPM BRASIL

- Mário Fernando de Melo Santos, Presidente do Conselho de Administração, ENDESA

- Silvia Maria Calou, Diretora Executiva, ABCE

- Sidney Simonaggio, Vice-Presidente Coorporativo de Operações, REDE ENERGIA

- Virginia Parente, Presidenta, Comitê de Energia, AMCHAM

O Smart Grid na América Latina

A impressionante velocidade com que se popularizou o conceito de redes inteligentes de energia ou smart grids está trazendo a teoria para a prática antes do que se esperava. Principalmente em razão das questões climáticas, a instalação de redes inteligentes avançou de forma significativa na lista de prioridades dos governos.

Na Europa, a motivação foi a busca da eficiência no uso final de energia, com a implementação de geração renovável em pequena escala, de forma a atender as metas de reduções de emissões de gás carbônico.

Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama concedeu U$ 4,5 bilhões para projetos de smart grid dentro do pacote de recuperação da economia, focando principalmente no gerenciamento da estrangulada infra-estrutura de transmissão e na adoção de tarifas que espelhem melhor os reais custos de fornecimento.

No Brasil e nos demais países da América Latina, o uso da eletricidade per capita ainda precisa se desenvolver muito. Se comparado aos padrões norte-americanos e europeus, o consumo por aqui pode ser considerado mínimo: cada pessoa na América Latina gasta, em média, 7,6 vezes menos do que na América do Norte e 3,25 menos do que na Europa. Por esse motivo, os governos latino-americanos vinham concentrando seus esforços na expansão da oferta de energia, mais do que na busca de eficiência do uso final e no combate ao desperdício.

Mas essa realidade também vem se transformado. Em 2009, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deu três passos importantes em direção à modernização da infra-estrutura de eletricidade: a consulta pública sobre medição eletrônica, a regulamentação do uso do PLC (comunicação pela rede elétrica) e a publicação, em consulta pública, da primeira parte de um estudo de aprimoramento da metodologia de tarifas de eletricidade no país.

A consulta pública sobre medição eletrônica objetivou colher subsídios dos agentes para definir regulação a respeito da substituição de medidores em baixa tensão por medidores eletrônicos. Nova regulamentação sobre o tema, que envolve a troca de 63 milhões de medidores, deve ser publicada ainda no primeiro semestre de 2010. A consulta sobre a alteração metodológica da estrutura tarifária mostra que a Aneel pretende definir até 2011, tarifas mais complexas e aderentes aos custos de fornecimento para os consumidores de baixa tensão. Finalmente, a regulação do uso da tecnologia PLC – Power Line Communications definiu regras para a transmissão de dados por meio da rede de distribuição, especificando que a receita com oferta de serviço de PLC deve ser revertida à modicidade tarifária.

Além desses passos do regulador brasileiro, o blecaute de dimensões gigantescas que ocorreu dia 10 de novembro de 2009 questionou a qualidade do setor elétrico brasileiro. De uma hora para outra, a sociedade percebeu que praticamente todas as atividades cotidianas estão vinculadas de forma inseparável ao uso de eletricidade. O blecaute promoveu a mobilização da classe política e do Congresso Nacional, onde ocorreram muitas discussões sobre como aumentar a segurança do sistema elétrico nacional e garantir tarifas acessíveis. Também cresceu a conscientização da urgente necessidade de construção de um programa nacional sobre essas tecnologias, adaptadas às realidades locais, criando incentivos à comunidade científica e empresarial para atender à demanda regional e global que deverá surgir nos próximos anos. A importância da atuação do Estado, portanto, não se limita a criar as condições de renovação do parque de energia, promovendo incentivos de desenvolvimento, financiamento e fomento aos projetos, mas principalmente na definição de políticas claras de incentivos à inovação e à regulamentação nessas áreas tecnológicas.

Tudo isso é imprescindível para que os riscos de novos blecautes sejam afastados, no atual momento econômico vivido pelo Brasil e na realização de eventos como a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas, em 2016, onde a infra-estrutura terá papel decisivo.

Por todos esses motivos, da mesma forma que na Europa e na América do Norte, várias distribuidoras brasileiras passaram do discurso à prática e já anunciaram significativos investimentos e projetos de smart grid.

A Cemig, concessionária do Estado de Minas Gerais, anunciou, no mês de dezembro de 2009, o projeto “Cidade do Futuro”. O programa será implantado em Sete Lagoas, cidade localizada a 70 quilômetros da capital mineira, com mais de 80 mil consumidores e população superior a 200 mil habitantes.

Já a Light, que atua na cidade do Rio de Janeiro, avança no uso de medidores digitais. Com uma perda total de 21%, dos quais 15 pontos porcentuais se referem a perdas comerciais, a companhia, em locais de alto poder aquisitivo, optou por instalar medidores digitais individuais nas unidades consumidoras, alcançando 40 mil clientes. Com isso, foi possível reduzir as perdas totais desses consumidores de 25% para 9%. Até o momento, a companhia instalou 40 mil medidores digitais nessas localidades e pretender instalar mais 120 mil em 2010. Nos três anos seguintes, serão outros 100 mil por ano. O objetivo é reduzir as perdas totais de 40% para 5% nessas regiões.

A Eletrobrás, por sua vez, anunciou investimentos da ordem de U$ 700 milhões em automação de processos operacionais e comerciais nas seis distribuidoras do grupo. Nesses casos, o foco também será na recuperação de perdas de energia, com a implantação de centro de controle de medição. Além disso, serão instalados 420 mil medidores da nova geração. A nova tecnologia alcançará todos os 9 mil clientes de média tensão, 115 mil clientes da baixa tensão e 29 mil clientes de condomínios. O projeto prevê também a substituição de medidores obsoletos de 300 mil clientes e a regularização de 265 mil ligações. Além disso, o programa terá a blindagem da rede e a automação de 780 alimentadores em média tensão.

A Ampla, que atua no interior do estado do Rio de Janeiro, foi a empresa pioneira no uso de medidores digitais no Brasil em larga escala. Entre 2003 e 2009, estes equipamentos foram empregado em 300 mil unidades consumidoras (12% dos clientes), com redução de perdas de 25% para 20%. Apesar dos benefícios, o impacto da regularização não foi bem digerido por alguns consumidores, que alegaram cobrança indevida, o que acabou por mobilizar a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro contra a medição eletrônica centralizada, pois os equipamentos na ocasião ainda tinham a homologação pendente. Com a homologação definitiva do Inmetro em julho de 2009, a Ampla retomou os planos de instalar os medidores digitais em sua área de concessão. Para 2010, a meta é instalar 50 mil unidades.

Representantes de outras empresas importantes, entre as quais a CPFL, a Copel, a Bandeirante Energia e a AES Eletropaulo concederam recentemente entrevistas à imprensa que estão estudando projetos de demonstração em maior escala para testar as novas tecnologias.

As empresas de tecnologia e os centros de pesquisa estão se mobilizando para redirecionar seus programas de investimentos e de pesquisa de forma a atender às novas demandas: todos eles possuem produtos ou projetos de smart grid e a capacitação de pessoal avança com grande interesse e velocidade. Uma mostra disso é o surgimento de um grande número de empresas de base tecnológica e a criação de novos produtos visando atender ao novo mercado.

O evento de 2010 está estruturado para atender a este momento e facilitar o avanço da implementação dessas tecnologias no Brasil e América Latina.

Bem-vindos ao SMART GRID FORUM/2010!

Cyro Vicente Boccuzzi

Presidente

Julio M. Rodrigues

CEO

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Smart Grid: chave para eficiência

Fonte: CanalEnergia – 23.04.2010 – Reportagem Especial

A necessidade de modernização dos ativos visando a uma maior eficiência tem se tornado uma realidade cada vez mais presente no Brasil. Para alcançar o conceito de rede inteligente, algumas distribuidoras já começam a investir em automação das redes e na substituição de medidores analógicos por modelos eletrônicos. A Agência Nacional de Energia Elétrica também vem dando passos importantes para a regulamentação de smart grid no país. O Ministério de Minas e Energia criou um grupo de trabalho para implantar programa brasileiro de redes inteligentes. Através destas iniciativas o Brasil começa a avançar na implementação deste conceito.

Diferentemente do que muitos pensam, o conceito de smart grid não envolve apenas a medição eletrônica. Integração dos sistemas computacionais, geração distribuída e automação de redes e subestações também são alguns dos passos para se chegar a uma rede inteligente. De acordo com o presidente da ECOee e do Fórum Latino Americano de Smart Grid, Cyro Boccuzzi, o conceito de rede inteligente envolve três pilares. O primeiro deles são os ativos elétricos, como chaves, medidores, cabos, transformadores e disjuntores. O próximo fator é o sistema de telecomunicações, que capta informações da operação em tempo real e traz esses dados para uma otimização dinâmica. O último campo é a tecnologia de informação, que abrange todos os sistemas de controle de gestão das empresas.

“Investir em tecnologia smart grid significa que as empresas precisam aplicar recursos nestes três pilares, mas nem todas têm que fazer exatamente os mesmos investimentos. Para áreas onde o problema seja um nível alto de perdas, o investimento em medição se justifica, mas em algumas outras concessionárias o problema pode ser endereçado de outras maneiras. É preciso entender um pouco o funcionamento da empresa. Não existe uma receita única”, explica. A redução das perdas comerciais é uma das principais razões para a substituição de medidores. As concessionárias do Rio de Janeiro, Light (RJ) e Ampla (RJ), por exemplo, têm investido nesta troca para reduzir os furtos e fraudes de energia.

Para a CPFL Energia, cuja perda está entre 2% e 2,5%, o investimento não seria tão vantajoso. A companhia já vem aplicando recursos há mais de dez anos em automação de rede. De acordo com o diretor de engenharia e gestão de ativos da companhia, Rubens Bruncek, desde o ano passado, a CPFL faz parte do Global Intelligent Utility Network Coalition, que é um grupo formado para desenvolver estudos e discutir as formas de aplicação de smart grid nas redes. Única representante da América Latina, a companhia atua juntamente com outras 11 distribuidoras de países como Estados Unidos, Índia e Austrália no planejamento de um trabalho que visa a automação de 100% das empresas em um universo de dez anos. “Nosso estágio agora é desenhar o planejamento decenal com indicação de tecnologias que já estão maduras para começarem a ser implantadas em alguns segmentos”, explica.

Entre as tecnologias sólidas e que começarão a ser implementadas pela CPFL, inicialmente, estão a automação dos medidores para clientes do grupo A e das chaves. A previsão é que, neste aspecto, a companhia esteja 100% automatizada em até três anos. Após este período, a companhia espera automatizar os medidores da baixa tensão. Quando se fala em automação em residências, a tecnologia ainda não é madura, então essa fase será iniciada um pouco mais para frente”, analisa. Na visão de Bruncek, a troca de equipamentos demanda bastante tempo para ser realizada . “Se substituíssemos os medidores dos nossos 6,5 milhões de clientes utilizando mil equipes de campo, que é um número muito grande, e conseguíssemos trocar quatro equipamentos por dia, eles [as equipes] levariam sete anos para fazer essa substituição. É um trabalho enorme, de varejo”, diz.

A AES Eletropaulo (SP) também está se preparando para adotar tecnologias com o conceito smart grid. A companhia estruturou desde o ano passado um grupo de trabalho para construir a visão estratégica de um projeto de rede inteligente e pavimentar o caminho a ser percorrido. Entre os estudos desenvolvidos pela empresa na área estão a implementação piloto do conceito de smart grid, que envolve duas substações e uma parcela atípica da rede de distribuição da AES Eletropaulo com soluções para automação, autorrecuperação, detecção de falhas, controle de carga, medição remota e gestão pelo lado da demanda. Sem finalidade de faturamento, a companhia também estuda o sistema de medição para exteriorização com as funcionalidades da telemedição, corte e religamentos remotos.

A infraestrutura de telecomunicação para suportar a modernização da rede elétrica de distribuição também está em estudos. A companhia está desenvolvendo protótipos de equipamentos de comunicação sem fio com ênfase na operação em faixa de frequência regulamentada. A AES Eletropaulo também prevê a implementação de plataforma de monitoramento e diagnóstico online de transformadores de potência. A ferramenta visa a identificar falhas incipientes em tempo hábil para ações proativas com possibilidade de correção antecipada de distúrbios no sistema elétrico. Por fim, a companhia estuda o desenvolvimento do protótipo do sistema integrado para a supervisão e controle de câmaras subterrâneas de transformação através da transmissão de sinais digitais.

“Os nossos direcionadores são o incremento da eficiência operacional, a redução dos custos e a melhoria dos serviços ao cliente”, disse o diretor de Tecnologia e Serviços da AES Eletropaulo, Ricardo Van Erven, sobre os impactos positivos da adoção do smart grid pela distribuidora. O executivo disse ainda que uma das dificuldades que ainda existem para que a tecnologia deslanche no Brasil é que a distribuição de energia é uma atividade que, como em todo o mundo, depende da diretriz do regulador. “É grande o desafio regulatório no Brasil, mas acredito que em relação ao smart grid vai além do regulador e passa por um plano de governo”. A opinião é compartilhada por Boccuzzi, da ECOee. “O grande desafio são as definições das políticas que envolvem a implantação destes sistemas, que são viáveis tecnologicamente, mas que demandam grandes quantidades de recursos. Para transformar estas plataformas, é preciso ter dinheiro de fomento para poder investir”, analisa.

A abertura de uma consulta pública no ano passado para coletar subsídios, a fim de formular um regulamento sobre a implantação de medidores eletrônicos em unidades consumidoras de baixa tensão, foi um passo importante dado pela Aneel para a regulamentação dos equipamentos. De acordo com o superintendente de Regulação dos Serviços de Distribuição da agência, Paulo Henrique Silvestri Lopes, esta consulta foi um pouco diferente das que são realizadas normalmente. “Neste caso específico fizemos uma consulta pública com perguntas mais provocativas para que os interessados respondessem e contribuíssem com sugestões sobre o tema. O objetivo foi buscar uma primeira opinião para formularmos uma proposta e colocar em audiência pública”, explica Silvestri, acrescentando que a intenção é que até julho deste ano seja aberta a audiência.

As perguntas feitas pela agência abordavam, entre outros temas, as funcionalidades incorporadas ao medidor necessárias para a implantação do novo sistema de medição; parâmetros obrigatórios de segurança da informação para o tráfego de dados entre a distribuidora e a unidade consumidora; destinação e soluções para o descarte dos medidores retirados de campo e prazo de substituição dos medidores. Participaram da consulta pública entidades como a Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica e a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica e as distribuidoras AES Eletropaulo, Ampla, CPFL Energia, Coelce (CE), Elektro (SP) e Rede Energia, entre outras.

Com as propostas recebidas, a Aneel já conseguiu formular uma proposta, que ainda não está concluída. De acordo com Lopes, as principais dúvidas estão relacionadas ao custo do medidor e ao tempo de substituição dos equipamentos. “Durante esse tempo, nós visitamos fabricantes tentando ter uma referência de preço para saber se é viável e em quanto tempo essa substituição seria feita, mas isso vai depender do grupo de trabalho que o governo está implementando. Se tivermos injeção de recursos federais, de alguns fundos setoriais, pode ser dada uma velocidade maior à implementação da medição eletrônica”, esclareceu o executivo, ressaltando que a intenção é não impactar a tarifa.

Criado em abril deste ano pelo Ministério de Minas e Energia, este grupo de trabalho vai analisar e identificar ações necessárias para subsidiar o estabelecimento de políticas públicas para a implantação de um Programa Brasileiro de Rede Elétrica Inteligente. Entre os aspectos abordados na proposta estão o estado da arte de programas do tipo smart grid, no Brasil e em outros países; adequação das regulamentações e das normas gerais dos serviços públicos de distribuição de energia; identificação de fontes de recursos para financiamento e incentivos à produção de equipamentos no país; e a regulamentação de novas possibilidades de atuação de acessantes no mercado, o que inclui a possibilidade de usuários operarem tanto como geradores de energia, através da geração distribuída, quanto consumidores.

Segundo portaria publicada no Diário Oficial da União na semana passada, o grupo será composto por representantes do MME, da Empresa de Pesquisa Energética, do Centro de Pesquisas em Energia Elétrica, da Aneel e do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Órgãos e entidades do setor que possam oferecer contribuições poderão ser convidados eventualmente para participar. O grupo de trabalho deverá concluir as atividades em 180 dias. Já o relatório técnico, que contempla os estudos, as análises e as propostas de medidas a serem adotadas deve ser entregue 30 dias após o final deste prazo.

Anualmente são substituídos, segundo a Aneel, cerca de 2,5 milhões de medidores por modelos eletrônicos básicos, que medem apenas a potência. A agência pretende que seja inserido nos próximos anos um medidor que tenha outras funcionalidades, como medição de interrupções e fator de potência da carga. Redução de falhas e ganhos de eficiência, através do consumo maior e melhor da energia, são algumas das principais vantagens para o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, no caso da troca de medidores. “Os equipamentos mais sofisticados, que vão medir cada etapa do processo abrem perspectivas, por exemplo, para previsão e redução de falhas e operação em tempo real de redes em função de intempéries surgidas como raios, por exemplo. Na medida que se tem medições ao longo de todo o processo, é possível agir de maneira otimizada usando recursos de telecomunicações e de TI de maneira a prevenir estas falhas”, afirma. Outras vantagens provenientes da rede inteligente são a melhoria dos padrões de fornecimento, redução de apagões locais, diminuição de erros de conta, postergação de novos investimentos.

Para Boccuzzi, diferentemente de países europeus e dos Estados Unidos, que já têm projetos avançados no tema, o Brasil ainda está no início da implantação da rede inteligente. “O que temos de uma maneira global e bastante generalizada no mundo são experiências focadas em áreas específicas dessas tecnologias que agora começam a ser colocadas de forma combinada”. Como exemplo, o executivo destaca a cidade de Boulder, localizada no Colorado, nos Estados Unidos. “A cidade recebeu uma série de investimentos e implantou uma plataforma tecnológica muito avançada incorporando diversos ingredientes, como controle da demanda de clientes, tarifas diferenciadas para diversos horários do dia, sistema de automação relativamente avançado que também estava interligado a sistemas de medição, geração distribuida e melhorias de confiabilidade. Essa é uma primeira implantação holística de todas estas tecnologias”. No Brasil, segundo o executivo, nenhuma distribuidora realizou ainda o que se pode chamar da “última geração de smart grid“.

A tecnologia está na fase inicial de adoção de mercado, de acordo com a BPL Global, empresa que atua no desenvolvimento e implementação de soluções de smart grid em mercados elétricos de todo o mundo. “Agora as distribuidoras estão trabalhando para avaliar, selecionar e implantar as soluções. De uma perspectiva estratégica, as distribuidoras estão no início de uma transformação para a rede inteligente, que evoluirá nos próximos 10 a 15 anos”, disse o vice-presidente executivo da companhia, Dermot O’leary. Para implementar uma solução de rede inteligente, a BPL Global recomenda que cada distribuidora identifique as aplicações que criam o maior valor para a companhia e seus clientes. “Isto pode ser impulsionado pelas necessidades operacionais, regulatórias ou dos clientes. A gestão integrada de aplicações de smart grid permite que as distribuidoras otimizem sua confiabilidade, eficiência, objetivos econômicos e ambientais”, indica O’leary.

Além da consulta pública para a regulamentação sobre os medidores, a Aneel também está realizando a revisão da estrutura tarifária, que envolve a tarifação horária para clientes de baixa tensão. O estudo está sendo feito desde o ano passado e a previsão é que esteja concluído até março de 2011. A proposta, segundo Silvestri, é que os consumidores comecem a pagar custos diferenciados para alguns horários do dia. “Você dá um sinal para uma tarifa maior na ponta para que as pessoas façam uso da energia fora dela e aí se consegue linearizar melhor essa curva de ponta. A entrada em vigor desta tarifação ainda não está definida porque depende da regulamentação da medição eletrônica. “Sem os medidores eletrônicos, que possibilitam a tarifação horária para baixa tensão, não temos como fazer. Então uma coisa depende da outra e é por isso que queremos avançar na questão da medição, para quando tivermos o estudo definido de tarifação horária, tenhamos o equipamento para possibilitar a sua aplicação”.

Outra normativa importante relacionada à rede inteligente é a utilização da rede elétrica para transmissão de dados e acesso à internet em alta velocidade por meio da tecnologia Power Line Communications (PLC). A resolução foi aprovada em agosto do ano passado e, de acordo com Silvestri, é outra opção que pode ser usada para o smart grid e o smart metering. “É mais uma possibilidade porque cada caso tem suas particularidades. A Aneel está destravando os caminhos para que todas as tecnologias possam ser utilizadas e sejam feitos estudos que se aplicam para cada situação”, diz.

É consenso entre os agentes do setor que o Brasil pode avançar na implantação e utilização das tecnologias visando a uma rede inteligente, desde que sejam considerados princípios de racionalidade econômica. Os projetos devem ser autossustentáveis, os benefícios precisam ser suficientes para a viabilização. A implementação desses sistemas tem que ser colocada em prática na medida em que há geração de valor não só para a distribuidora, mas que também traga benefícios para seus clientes. Da mesma forma que a máquina de escrever foi substituída pelo computador, a transição para uma rede inteligente, através da combinação da medição, dos sistemas de telecomunicações e da tecnologia da informação, deverá ser mais uma das evoluções que acontecerão com o passar dos anos.

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Avanços em favor das redes inteligentes

Fonte: Jornal da Energia – 06.04.2010 – Por Cyro Vicente Boccuzzi*

A instalação de redes inteligentes de energia, ou smart grids, tem avançado significativamente na lista de prioridade dos governos, agências e demais instituições do setor no mundo inteiro. A medição eletrônica começa a se tornar realidade em diversas regiões. Além disso, outras tecnologias relacionadas à redução de perdas, otimização de consumo e descentralização da geração já não são efetivamente novidades. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para transformarmos esse conjunto de avanços isolados efetivamente em smart grids.

O primeiro grande desafio reside na própria estrutura física das redes. A modernização dos ativos, com a instalação de medidores eletrônicos para todos os consumidores de baixa tensão, permitiria um levantamento mais preciso do consumo e seria o passo inicial. A reforma da estrutura tarifária, com a criação de diferentes tarifas para os diferentes perfis de consumo, seria a etapa seguinte e favoreceria um melhor aproveitamento da infraestrutura existente, reduzindo os horários de pico de consumo. Por fim, a simplificação do processo de venda da energia excedente dos microgeradores – unidades geradoras solares e eólicas, por exemplo, instaladas nos próprios consumidores – completaria o processo de modernização.

Não que estejamos parados. Uma série de ações – ainda que isoladas – está em curso para viabilizar essas mudanças. Os principais exemplos podem ser verificados entre as concessionárias de distribuição.

As concessionárias fluminenses vêm tomando a dianteira no uso de medidores eletrônicos em favor do combate às perdas comerciais. A Ampla, por exemplo, instalou cerca de 300 mil unidades entre 2003 e 2009, o equivalente a 12% dos seus clientes. Com isso, foi possível reduzir as perdas em 5 pontos percentuais, de 25% para 20%. Para 2010, a meta é instalar 50 mil aparelhos. Já a Light, com uma perda total de 21%, dos quais 15 pontos percentuais se referiam a perdas comerciais, optou por instalar medidores digitais em locais de alto poder aquisitivo. Até agora já foram instalados 40 mil aparelhos, reduzindo as perdas desses consumidores de 25% para 9%, com metas de chegar a 2%. A ideia é instalar 120 mil medidores em 2010 e mais 100 mil por ano no próximo triênio.

Já a Eletrobrás anunciou investimentos na ordem de R$700 milhões em automação e processos operacionais e comerciais nas distribuidoras do grupo. Pretende implantar um centro de controle de medição com o objetivo de reduzir as perdas. Além disso, quer levar para suas subsidiárias a experiência que vem dando certo no Rio: vai instalar mais de 400 mil medidores eletrônicos em clientes de média e baixa tensão.

A Cemig, por sua vez, está trabalhando num programa de automação da distribuição, o Cidade do Futuro. O projeto será implantado em Sete Lagoas (MG), que possui mais de 80 mil unidades consumidoras. Seguindo a mesma linha, outras empresas importantes do setor como a CPFL e a AES Eletropaulo também anunciaram projetos de testes em grande escala. Por fim, empresas de tecnologia e centros de pesquisa também estão atentos a esse novo cenário e trabalhando em favor de produtos ou projetos relacionados ao smart grid.

Vale observar que esses projetos, de uma maneira geral, se concentram na redução de perdas comerciais das empresas. Afinal, é natural que o processo comece levando em conta as necessidades mais urgentes dos atores envolvidos. No entanto, os benefícios das redes inteligentes de energia podem ir muito além disso.

Ciente desses fatos, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deu, no ano passado, três passos muito importantes em favor da regulamentação do assunto. Suas preocupações seguem os movimentos das distribuidoras, haja vista a abertura de uma consulta pública sobre a medição eletrônica, mas também outros aspectos fundamentais para o conjunto do smart grid: a publicação, também em consulta pública, da primeira parte de um estudo de aprimoramento das tarifas praticadas no Brasil e a regulamentação da comunicação pela rede elétrica por meio do uso do PLC (Power Line Communications).

A sociedade não está alheia a essa tendência. Prova disso é a criação do Fórum Latino Americano de Smart Grid que, em agosto deste ano, realiza em São Paulo a terceira edição de evento para debater essas questões, bem como experiências internacionais na área. O fórum conta com a participação de concessionárias, grandes consumidores e produtores de energia, governos, agências reguladoras, fabricantes de equipamentos, provedores de sistemas e soluções de medição, controle, automação e entidades de desenvolvimento de P&D de vários países. Em todas essas áreas há muito o que fazer e é fundamental um trabalho conjunto em favor da evolução do setor elétrico consolidada na forma de smart grid.

* Cyro Vicente Boccuzzi é sócio-presidente da ECOee – Expertise, Consultoria e Ordenamento em Energia Eficiente (www.ecoee.com.br) – e presidente do Fórum Latino Americano de Smart Grid (www.smartgrid.com.br).

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