Redes inteligentes: uma revolução na gestão do consumo

A revolução das redes inteligentes parece estar mais perto de se tornar uma realidade no Brasil. E isso não vai demorar uma década para acontecer. Em 2012, as primeiras experiências reais serão fato para um grupo de dois mil consumidores dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Eles poderão controlar seu consumo de energia através de mostradores digitais instalados em casa ou por telefone celular e até pelo aparelho de televisão. Isso e muito mais será possível através do programa de Pesquisa e Desenvolvimento, que está sendo tocado por Light e Cemig.

O investimento vultoso de R$ 65 milhões, por três anos, para o estabelecimento de uma verdadeira rede inteligente chamou a atenção inclusive do governo americano. Durante a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em março, a Agência Americana para o Desenvolvimento e Comércio (USTDA, na sigla em inglês) firmou um acordo de financiamento de US$ 710 mil para o projeto. Além dos recursos financeiros, a parceria vai possibilitar aos técnicos acessar as experiências das empresas de energia elétrica americanas na implantação do smart grid. “Esse é o primeiro contrato do tipo na América Latina”, conta Fábio Toledo, coordenador do Programa Smart Grid Light/Cemig.

Lançado em outubro do ano passado, o programa segue em ritmo acelerado. No dia 31 de março, ou seja, seis meses depois do lançamento, a Light recebeu o primeiro protótipo industrial do medidor inteligente que será instalado nas residências dos clientes da distribuidora. “Vamos partir para os primeiros testes agora. Espero instalar os primeiros equipamentos em campo para teste no final deste ano ou no começo do ano que vem”, adiantou Toledo.

Mas o trabalho dos técnicos de Light e Cemig não se restringe aos medidores. Na verdade, não há restrições nesse trabalho, que tem uma visão global, da rede de distribuição. No centro dessa grande experiência está o consumidor, que deve se tornar soberano nas decisões sobre consumo de energia. Por isso, conta Toledo, as distribuidoras querem conhecer quem são esses clientes para que a tecnologia seja totalmente adaptada ao público em geral. Uma das preocupações é com a privacidade dos clientes, para tanto, o projeto está negociando cooperação com um grupo de defesa da privacidade do consumidor canadense.

Os consumidores terão acesso a um “grande portal” na internet, que deve entrar no ar no próximo mês de maio. No website, poderão acompanhar, por exemplo, gráficos da evolução do consumo. Toledo contou que o site, que seria aberto apenas aos participantes da experiência, será liberado para um público maior. “Decidimos fazer uma versão demo onde as pessoas, como jornalistas, poderão fazer uma conta ligada a um medidor real, de laboratório, que dará para o cliente ter uma sensação nítida de como é participar do programa de smart grid”, explicou.

Toledo disse que está no processo de seleção dos consumidores que vão participar da experiência no Rio de Janeiro. Depois a escolha será feita na cidade de Sete Lagoas, em Minas Gerais. “Queremos alcançar áreas de densidade urbana com perfis de diferentes níveis sociais para ver a reação das pessoas”, observou. E isso vai ser fundamental já que o programa mexe com a forma como o consumidor se relacionar com a energia elétrica.

Uma das intenções do programa de smart grid é a automação das casas. Está sendo desenvolvida uma tomada ou relé inteligente. De acordo com Toledo, a distribuidora fará a medição individual de cada uma dessas tomadas. “O cliente vai poder programá-la para cortar ou ligar baseado em timming, comando instantâneo ou em programação”, explicou. Ou seja, o consumidor poderá programar a duração do banho quente. O programa está firmando um acordo com um grande fabricante de eletrodomésticos para que a interação seja não com a tomada, mas com a máquina de lavar. “O consumidor poderá programar os aparelhos da casa para ligarem e o tempo que ficarão ligados”, afirmou.

Isso tudo vai resultar, espera o especialista, em um uso racional e eficiente da energia. O novo website terá um jogo de eficiência energética, que vai ajudar o consumidor a mudar os hábitos. Além disso, Toledo explica que o combate às perdas não técnicas, os chamados gatos, também é importante, pois “quem furta desperdiça”. “O consumidor vai adequar o consumo a seu bolso. O cliente vai ter acesso a seu consumo de qualquer lugar”, salientou.

O programa pensa também na introdução dos veículos elétricos e híbridos na frota brasileira e sua recarga. As empresas estão desenvolvendo tomadas de recargas dos veículos para uso em locais públicos. Outro ponto abordado é a medição e controle da iluminação pública, que poderá ser feita de modo individual pelos medidores eletrônicos para cada ponto. “Para isso, precisaremos de um acordo com a empresa de iluminação pública”, salientou.

Em relação à geração distribuída, o programa vai instalar painéis fotovoltaicos, de pequeno porte, na casa dos consumidores para simulação na rede. Esses clientes poderão gerar a própria energia e vender o excedente para o sistema. Será testado ainda o armazenamento da energia para uso no horário de pico, quando a energia é mais cara. A geração de energia solar também incluirá uma usina, de 3 MW/pico, que será construída em Sete Lagoas, em parceria com a empresa Solaris. Neste caso, o projeto está em processo de contratação e licenciamento. Será construído ainda na cidade mineira um estádio de futebol solar de médio porte.

O conceito de microgrid, a geração no centro de uma determinada carga, para atendimento local também será testado. Essa geração pode, por exemplo, impedir que um blecaute nacional atinja a área atendida. A rede inteligente também significa a automação do sistema. Uma das facetas são os religadores automáticos inteligentes que se comunicam para autoconfiguração da rede. Além disso, a Light está adotando uma tecnologia para monitoramento de descargas parciais na rede subterrânea, que permite prever onde pode ocorrer curtos para manutenção.

Para essa revolução ser completa, a parte regulatória terá que passar por mudanças radicais. Tarifa diferenciada por horário, geração distribuída e a instalação de medidores eletrônicos, tudo isso está em audiência pública na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). São assuntos fundamentais para o sucesso do smart grid no país. A agência reguladora, contou Toledo, está acompanhando de perto o programa de Light e Cemig. “Esse, com certeza, é o maior programa da América Latina. E, talvez, um dos cinco maiores do mundo em execução”, avaliou o executivo.

Fonte: Procel Info

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