Tecnicamente, eficiência energética é a relação entre a energia útil final de um processo ou energia de saída e a energia total necessária ou energia de entrada.
“Um exemplo clássico seria o de uma lâmpada: a energia útil é a iluminação, a energia de entrada é a potência da lâmpada multiplicada pelo tempo que a lâmpada permanece ligada. Mas a lâmpada é um exemplo claro de ineficiência também, pois apenas 8% da energia de entrada são transformados em iluminação; o resto se perde em calor. Uma lâmpada ligada em uma sala desocupada é um caso onde a energia útil é nula. Outro exemplo interessante, saindo da área elétrica, é o carro: a energia de entrada é a quantidade de calor do combustível no tanque e a energia de saída é a movimentação do carro. Também é um processo pouco eficiente, pois um carro parado/ligado gasta combustível, mas não produz nenhuma energia útil”, explica o professor Ivan Camargo do Departamento de Energia Elétrica da Universidade de Brasília (UnB).
Pensando em melhorar essa relação na área elétrica, surgiu o smart grid que é o nome genérico de um grande elenco de tecnologias que até bem pouco tempo não eram viáveis economicamente, mas que estão se viabilizando e encontrando as concessionárias funcionando da mesma maneira que há 100 anos, pois a despeito de toda a evolução tecnológica na eletrônica e na tecnologia de informação, esse progresso não foi incorporado aos serviços prestados. Nossos sistemas elétricos ainda são antigos e ineficientes: os atuais medidores de consumo elétrico são exatamente iguais aos existentes nas casas de nossas avós! Na era digital, ainda estamos em busca de novas tecnologias na área elétrica, mais eficientes. Essas tecnologias visam aumentar o nível de integração das operações das empresas de energia que são feitas hoje manualmente e de forma não integrada. Tudo para a utilização mais eficiente da energia.
Há alguns anos o termo smart grid vem ganhando espaço nos debates em todo o mundo e as iniciativas para implantá-lo em países europeus ou nas Américas tem por base motivos diferentes – a Europa é motivada pela necessidade de melhorar a eficiência no uso final de energia e para implementar a geração renovável em pequena escala, como telhados solares conectados às redes, para alcançar suas metas de redução de emissões de CO2. Nos EUA, o principal foco é reduzir o impacto de atos terroristas e de catástrofes naturais cada vez mais severas, em decorrência das mudanças climáticas. No Brasil e demais países da América Latina, o tema chegou mais recentemente até porque o uso da eletricidade per capita precisa se desenvolver para compensar a implantação de uma rede elétrica inteligente cada pessoa na América Latina gasta 7,6 vezes menos que na América do Norte e 3,25 menos do que na Europa.
E os governos latino-americanos têm se esforçado para a expansão da oferta de energia antes que na busca de eficiência e combate ao desperdício – sem contar que a matriz energética latino-americana é uma das mais limpas do mundo. Mas percebe-se que os grandes investimentos feitos nas redes de distribuição ficam ociosos um bom período da madrugada e deslocar algum consumo para esse horário, com desconto, seria um bom negócio para todos. Existe uma proposta junto à Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL de substituição de medidores ao longo do tempo com requisitos mínimos e a maior parte dos agentes acredita que essa alteração não deve ser impositiva porque na medida em que as tarifas diferenciadas possam ser cobradas, não há motivo para não implementar. Mas antes disso, é preciso que o Brasil tenha uma política energética, assim como na Europa e nos EUA, onde o smart grid está considerado no planejamento energético.
No Brasil, a estratégica ficou por conta de um grupo criado para definir a política de como essas tecnologias devem ser incorporadas ao sistema elétrico brasileiro, mas tal grupo ainda não divulgou resultado algum. “Primeiro é preciso uma política energética porque, quando se faz regulação sem uma política maior, pode se errar na dose. Existem várias discussões e estudos em andamento, mas essas coisas precisam ser sincronizadas”, resume Cyro Vicente Boccuzzi, vice-presidente da Rede Energia e Executivo da Enersul, conselheiro e fundador da consultoria ECOee Energia Eficiente e coordenador do Fórum Latino Americano de Smart Grid. Agora, ou um pouco mais adiante, o setor de energia terá que absorver as novas tecnologias à disposição da infraestrutura, integrar ativos de eletricidade com dispositivos de sensoriamento, telecomunicações e TI.
A ideia ao extremo é que os medidores de energia residenciais conversem com os eletrodomésticos e atuem sobre eles, para que funcionem sincronizados com os preços de energia vigentes nos diferentes horários do dia. E, nesse contexto, os veículos elétricos, além de serem consumidores móveis, terão a habilidade de fornecer energia para as casas no período noturno, podendo ser recarregados durante a madrugada, quando as redes de energia ficam mais ociosas – para isso as tecnologias de armazenamento de energia, em rápida evolução, são ainda um calcanhar de Aquiles e ao mesmo tempo uma grande, talvez a maior, oportunidade de transformação radical da realidade de uso de energia atual.
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