Mudou o Mundo, ou Mudei Eu?: Esqueça Rede Inteligente, Microgeração é o Futuro

Muitos continuam intrigados com a tecnologia de rede inteligente, mas a maioria não tem ideia de como ela pode ajudar o consumidor a diminuir suas contas de energia, pelo contrário, elas parecem ajudar a aumentá-las.

O relatório recentemente divulgado pela Smart Grid Consumer Collaborative (SGCC) chamado “The 2011 State of the Consumer“, analisa mais de 80 estudos e documentos técnicos para tentar entender o que os consumidores querem a partir de novas tecnologias e da rede inteligente. O relatório conclui que é importante gerar e difundir mais entusiasmo sobre rede inteligente, que é importante ressaltar como a rede inteligente pode cortar os custos crescentes com energia e como pode ser simples e fácil utilizar novas tecnologias de energia limpa.

O que tudo isso significa é que os consumidores querem benefícios tangíveis, tais como redução de custos com energia, confiabilidade e capacidade de selecionar e escolher as tecnologias e os esquemas de preços. Sites que auxiliam os consumidores a monitorarem o consumo de seus eletrodomésticos e a controlá-los também são importantes e já vêm sendo desenvolvidos.

Já exemplos como o visto na cidade de Boulder, no estado americano do Colorado, têm que ser evitados. Eles tiveram muitos problemas em criar uma rede inteligente. As últimas informações dão conta de que a Xcel Energy enviou a milhares de moradores aleatoriamente selecionados na cidade, um panfleto que aparentemente obriga o consumidor a se inscrever em um programa piloto de preços no projeto de SmartGridCity da empresa. Por esse programa, esses consumidores terão tarifas mais caras no horário de ponta e mais baratas no horário fora de ponta. Claro que as autoridades locais acharam incorreta a proposição da empresa, principalmente porque os clientes da Xcel não possuem as ferramentas que precisam para realmente controlarem seu próprio uso da energia, para mudarem seu consumo no horário de pico e programarem seus eletrodomésticos de forma adequada. Os consumidores com medidores inteligentes da Xcel podem ver apenas o que usaram de energia no dia anterior.

Questionadas as autoridades disseram que os consumidores estão expostos a riscos, pagando menos durante os horários de pico, e a um risco maior ainda pagando mais caro nesses mesmos horários. É uma desvantagem para o consumidor e parece muito difícil convencê-lo que ele saia do horário de pico, pois previsões iniciais da Xcel dizem que os consumidores vão economizar em torno de 37 a 47 dólares por ano com essas medidas. Fica a pergunta, quem em seu perfeito juízo vai mudar seu comportamento por 10 centavos por dia?

Uma forma mais inteligente de atrair o consumidor seria oferecendo a ele a chance de ganhar muito mais dinheiro com isso do que tentando reduzir centavos da sua conta. Já falei sobre esse tema aqui, mas mesmo sendo um pensamento incompleto, vale a pena iniciar a discussão.

Sim, as tecnologias de rede inteligente serão necessárias no futuro, mas acho que estamos começando pelas tecnologias erradas. Todo o foco atual é sobre como essas tecnologias irão melhorar a rede elétrica em si, mas pouco se fala e faz para resolver um problema fundamental: a energia continua sendo gerada e distribuída de forma centralizada. Ao invés de se investir em Rede Inteligente, começo a acreditar que devemos investir é em microgeração com microrredes. Microgeração é a implantação de geradores de energia de forma localizada (e em pequena escala) que são projetados para atenderem a uma única instalação ou localização.

O que é interessante nisso é que microgeração na sua implementação final significa reduzir a carga total na rede elétrica (e a conta do consumidor) e ao mesmo tempo minar as preocupações gerais de “infraestrutura crítica”. Parece a princípio um mau negócio para as distribuidoras, mas não é. Para as empresas de energia, microgeração também representa uma oportunidade nova e muito interessante de novas receitas. E, aliás, este seria (pelo menos hoje) uma receita provável que estaria fora da maioria das pesadas regulamentações. É verdade que novas regras seriam inevitáveis, mas no geral o impacto seria extremamente positivo.

Imagine se cada estabelecimento comercial tivesse sua própria geração. O pico de carga do dia seria então muito reduzido na rede. E, se bem projetados, esta abordagem poderia também ajudar a melhorar as capacidades de geração e de estabilidade da rede como um todo, podendo ainda esse comércio vender de volta à rede sua energia excedente (se assim desejar), particularmente à noite durante o horário de maior pico de carga.

Removendo-se assim a dependência da distribuição de energia, muitas questões de confiabilidade, segurança e preço vão embora. Por exemplo, grandes catástrofes naturais, como as do início desse ano no Rio, ou blecautes, como o último que ocorreu no nordeste, não desligariam a maioria dos comércios, o que por sua vez permitiriam às empresas de energia elétrica se concentrar na restauração dos outros clientes (como bairros residenciais). Potencialmente interessante é também o conceito de microrredes, onde bairros de moradores interconectados poderiam se unir em uma configuração tal que, seriam alto suficientes com suas próprias capacidades de microgeração.

Soma-se a isso o fato de que a maioria dos nossos equipamentos é no final, alimentados em DC e não AC, assim a microgeração já seria realizada em DC, e você poderia começar a ver um futuro onde Rede Inteligente em si é bem menos importante. Vamos torcer para que os políticos acordem e sintam o cheiro verde dessa ideia e aprovem o Projeto de Lei 630/2003.

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