Tecnologia: Aliada ou Adversária do Trabalhador?

ENTREVISTA. Fabiana Borges Santos é pesquisadora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR), da UFMG.

- A tecnologia é uma aliada ou um adversário para os trabalhadores?

A tecnologia deve ser vista como uma aliada dos trabalhadores. Há distintas dimensões em que podemos identificar os benefícios que as inovações trazem para os trabalhadores. Inicialmente, de uma forma mais geral, não podemos considerar o avanço das civilizações dissociado do desenvolvimento de novas idéias e novas formas para solucionar desafios e problemas à vida das pessoas. Este é o princípio da tecnologia. Os avanços na saúde, na segurança do trabalho, na agricultura, na energia, no uso da água, aumento da expectativa de vida e do tempo de lazer, para citar alguns, resultaram do desenvolvimento de tecnologias. Nem sempre estas tecnologias são visíveis, mas elas sempre estão ocorrendo e são fundamentais para o desenvolvimento humano e para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa. De fato, a perspectiva de desenvolvimento sustentável se impõe para garantir condições de vida adequadas para as gerações futuras. Atualmente, preocupações com o desenvolvimento sustentável têm ocupado a agenda de Ciência e Tecnologia de vários governos e elas envolvem a busca de soluções para os problemas relacionados à disponibilidade de água potável, fontes mais baratas e limpas de energia, produção mais barata de alimentos e medicamentos, controle de mudanças climáticas e epidemias, desenvolvimento de meio de transporte de massa mais eficientes, educação de populações pobres e vulneráveis via internet.

Não podemos pensar em desenvolvimento econômico, sem pensar em tecnologia. Ela é o motor do desenvolvimento econômico. A geração de empregos e renda, em última instância, está relacionada com a capacidade do país em realizar inovações tecnológicas. Se, de um lado, novas tecnologias podem substituir trabalhadores, destruir postos de trabalho, elas também abrem novas oportunidades de emprego em outros setores da economia e em novas atividades econômicas. Em estudo recente do IPEA, foi mostrado que empresas inovadoras pagam maiores salários, têm uma menor rotatividade de trabalhadores e investem em treinamento e qualificação sistematicamente.

Para além das questões envolvidas com o mercado de trabalho, é relevante para os trabalhadores considerar a importância das tecnologias para sua qualidade de vida. Deve-se pensar, antes de tudo, nas conquistas sociais, médicas, humanitárias, ambientais, dentre outras, que foram obtidas através do desenvolvimento de novas tecnologias.

Hoje, por exemplo, as tecnologias sociais são reconhecidas como meios para o “empoderamento” de populações em situação de vulnerabilidade. São tecnologias que visam a transformação social, através da busca de soluções para problemas na vida das pessoas. Elas levam à inclusão social, à geração de trabalho e renda e ao desenvolvimento social. Exemplos são: energia solar a baixo custo, barragens para retenção de águas da chuva, cisternas para o semi-árido, técnicas e métodos de produção agrícola em pequena escala; técnicas e métodos de utilização de resíduos para a elaboração de novos produtos; dentre outros.

É claro que não podemos e nem devemos negligenciar o fato de que o desenvolvimento de tecnologias pode também impor perigos à sobrevivência da humanidade, bem como podem gerar impactos inesperados sobre as pessoas e a sociedade como um todo. Podem também gerar exclusão social, desemprego, problemas ambientais e sociais. Alguns riscos envolvidos no desenvolvimento de novas tecnologias são a dispensa de trabalhadores pela extinção de postos de trabalho e de determinados tipos de função, a rápida obsoletização de conhecimentos tradicionais dos trabalhadores e investimentos, levando a rápida rotatividade e flexibilidade nas relações de trabalho, e, em um nível mais geral, o uso para fins bélicos de destruição em massa (armas químicas e nuclerares, guerra biológica, por exemplo), aplicações comerciais de informações da genética humana; acidentes químicos e vazamentos de substâncias tóxicas.

Nesse sentido, é fundamental que junto ao desenvolvimento de novas tecnologias seja garantida a sua adequação ética, social (incluindo aqui a dimensão relativa ao mercado de trabalho), econômica e política e que as pessoas sejam informadas de suas consequências e impactos.

- Como os trabalhadores devem se preparar para se adaptar ao mercado de trabalho cada vez mais tecnológico?

As questões-chave aqui são a educação e a criatividade.

Antes de discutirmos estas questões, é importante considerar alguns aspectos. Em primeiro lugar, as atividades produtivas – agricultura, indústria e serviços – estão cada vez mais integradas, assumindo uma dimensão mais sistêmica do que fragmentada. Por exemplo, hoje falamos do complexo agroindustrial ou da cadeia agroindustrial, que contempla desde o desenvolvimento da ciência e tecnologia associada à atividade agropecuária, as técnicas de preparação da terra e manejo de culturas, as sementes, os adubos, as diversas atividades rurais, as máquinas e implementos agrícolas, a comercialização, a logística, as negociações em bolsas de valores.

Em segundo lugar, o cenário das ocupações e da distribuição do trabalho deverá mudar concomitantemente com o desenvolvimento e incorporação de novas tecnologias. Por exemplo, saber usar computadores e a internet é hoje um requisito para qualquer trabalhador. Muitos serão empregados em indústrias criativas, onde o uso do conhecimento e da criatividade são diferenciais. Futuramente, as pessoas tratarão de maneira corriqueira conceitos que hoje são um mistério para grande parte da população como nanotecnologia, biotecnologia e outras.

Em terceiro lugar, as tecnologias dependem cada vez mais de conhecimentos de diversas áreas, tornando-se multi e interdisciplinares.

A formação dos profissionais modernos exigirá novas qualificações e a educação deverá acompanhar estas mudanças. Inicialmente, os profissionais deverão estar preparados para conviver em um mundo no qual as mudanças são rápidas e a disponibilidade de informações é imensa. Atitudes cooperativas e habilidades para desenvolver trabalho em equipe serão importantes. Independência, autonomia e criatividade são importantes para construção de homens capazes de aprender (aprender fazendo, aprender interagindo, aprender aprendendo…). Dessa forma, a educação deverá privilegiar a criatividade ao invés da reprodução. O ensino não poderá ser mais compartimentalizado em disciplinas, na medida em que os novos profissionais deverão ser capazes de enfrentar problemas nas suas múltiplas dimensões e complexidade. E a educação deverá ser continuada ao longo da vida. Aqui, novamente, a capacidade de aprendizagem é fundamental.

- Faltam programas de qualificação de mão-de-obra?

Sem dúvida, hoje existe uma escassez de programas de qualificação profissional que não só preparem os trabalhadores para as atividades produtivas mais tradicionais, mas principalmente para os conteúdos e atividades exigidas pela novas tecnologias e para as atividades mais intensivas em tecnologia. Há também uma questão que deve ser explicitamente considerada: a dimensão territorial da demanda por trabalho e das qualificações. Devemos considerar que no Brasil e em Minas Gerais, em particular, existem consideráveis disparidades territoriais, que se refletem na distribuição das atividades econômicas no espaço e, consequentemente, na demanda por mão de obra e nas qualificações exigidas. Por exemplo, hoje no Triângulo Mineiro há uma forte demanda por trabalhadores para a indústria sucro-alcooleira, enquanto na Região Metropolitana de Belo Horizonte há uma forte demanda por trabalhadores capazes de se inserir em atividades de alta tecnologia (por exemplo, técnicos em biotecnologia, trabalhadores para a eletroeletrônica, serviços na aviação civil, dentre outros), bem como nas atividades minero-metalúrgicas. Os elevados investimentos em minero metalurgia no Alto Paraopeba exigirão um aumento no número de cursos profissionalizantes e de formação de recursos humanos. O que quero dizer é que os programas de qualificação de mão de obra deverão ser “territorializados”.

- Vocês trabalham no projeto Agenda 2010-2030 do governo. Quais as principais mudanças para a área de trabalho, emprego e renda vocês esperam neste período?

Um primeiro aspecto que chama a atenção é que a minero-metalurgia continuará a ser uma atividade importante no estado. Entretanto, os desenvolvimentos tecnológicos futuros dessas atividades exigirá novas qualificações. Uma dimensão importante será sem dúvida preparar os trabalhadores para questões ambientais. Da mesma forma, reciclagem, uso racional da água, aproveitamento de resíduos e rejeitos, recuperação de áreas degradadas e produção de baixo carbono são questões importantes colocadas.

Um segundo aspecto é que as tecnologias transversais não, bio e tecnologias da informação deverão transformar os setores tradicionais a partir de dentro. Isso significa incorporar, por exemplo, a nanotecnologia à produção de cimento, de automóveis, de tecidos, ou mesmo de medicamentos. As tecnologias da informação são capazes de promover grandes ganhos de produtividade na indústria e nos serviços.

Um terceiro aspecto é a importância que a energia assume. Deverão ser estimulados investimentos no desenvolvimento de energias alternativas e a energia solar deverá ser uma das principais apostas. Da mesma forma, sistemas de redes inteligentes deverão se difundir rapidamente. Veja-se, por exemplo, a experiência da Cemig em Sete Lagoas com a implantação de redes e medidores inteligentes.

Uma quarta dimensão é a importância conferida à indústria aeronáutica e aos serviços de manutenção de aeronaves. Já está localizado no Aeroporto de Confins o centro de serviços de manutenção da Gol. Centros de serviços de outras companhias áreas deverão ser atraídos. Isso requererá uma rápida qualificação de profissionais para esta atividade. Da mesma forma, Minas Gerais, através da UFMG, da Unversidade Federal de Uberlândia e do CETEC, possui fortes capacitações para desenvolver algumas atividades na indústria aeronáutica. Esta é uma forte aposta do governo do Estado.

Finalmente, fora do Agenda 2010-2030, é importante considerar as novas atividades econômicas a serem apoiadas pelo governo em um projeto recentemente desenvolvido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico. Nesse caso, este projeto contempla as seguintes áreas: aeronáutica, componentes eletrônicos, tecnologias da informação e comunicação, saúde / biotecnologia, turismo (de negócios, de lazer e de saúde); logística e comércio atacadista.

- Em razão da Copa 2014, Belo Horizonte deve acelerar obras nos próximos dois anos. Quais os prós e contras destas obras para a população?

Uma das principais vantagens que a Copa trará será a elevação da demanda por mão de obra, notadamente na construção civil e nos segmentos associados ao turismo e às atividades criativas. Isso exigirá um enorme esforço do poder público na formação e qualificação dos trabalhadores. Além disso, estão previstas importantes obras viárias e implantação de sistemas de transporte de massa que deverão, futuramente, facilitar a vida da população da RMBH. Os investimentos previstos para a Copa gerarão uma demanda derivada por produtos e serviços na economia mineira e nacional que contribuirão para dinamizar o mercado de trabalho com a elevação do emprego e da renda.

No curto prazo, entretanto, alguns problemas poderão ser criados para a população, como desapropriação de áreas e a transferência de muitas pessoas para outras regiões da RMBH; dificuldades no trânsito, congestionamentos, imigração de pessoas em busca de novas oportunidades de trabalho, e pressão sobre os serviços públicos. Tudo isso exigirá um grande esforço de planejamento pelo poder público. No longo prazo, para que os investimentos da Copa sejam capazes de beneficiar socialmente as comunidades onde se localizam, deverão ser feitos planos para utilização desses espaços, notadamente para a formação de crianças, jovens e adultos. Devemos lembrar que em 2016 teremos a Olimpíada no Rio de Janeiro e as infra-estruturas hoje construídas para a Copa poderão ser utilizadas para preparar nossas crianças e jovens para a Olimpíada, ou pelos menos começar a prepará-los para o futuro.

- O que os trabalhadores podem esperar de mudanças até 2030?

Como comentamos anteriormente, são várias as mudanças que podemos esperar para Minas Gerais nos próximos vinte anos. Dentre elas destacaria duas:

A primeira se relaciona à questão ambiental. A educação ambiental dos trabalhadores coloca-se como um pilar importante de sua formação. São os trabalhadores que transformarão as atitudes ambientais das empresas, pois são eles que de fato realizam as atividades operacionais e têm condições de avaliar, no seu dia a dia, os impactos que estas atividades geram sobre o meio ambiente e as comunidades.

A segunda são os desafios criados pelas novas tecnologias (tecnologias da informação, nanotecnologia e biotecnologia). Estas tecnologias são transversais e exigem novos conhecimentos multi e interdisciplinares. Exigem que os novos profissionais estejam constantemente se atualizando e estabelecendo redes de cooperação e de trabalho conjunto. A capacidade de aprendizagem e a criatividade vão ser fundamentais no futuro.

Fonte: FSMG

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