Uma Rede Brasileira Inteligente Contra Apagões

O tema é o mais discutido no país e conseguiu inclusive irritar a presidente Dilma Rousseff, o Apagão.

Mas um novo conceito chamado de rede inteligente promete dotar a infraestrutura elétrica de controles e sensores capazes de identificar problemas no momento em que ocorrem. A partir da implantação de um sistema, será possível isolá-los e consertá-los mais rapidamente, minimizando seus efeitos, além de também tornar possível, direcionar a energia para rotas alternativas, no caso de falhas em trechos da rede. E se a rede fosse inteligente, o impacto dos apagões seria menor.

No exterior as empresas elétricas têm adotado cada vez mais a rede inteligente, que promove economia de energia, torna o serviço mais resistente a falhas e permite oferecer planos de serviço diferenciados para o consumidor, como ocorre na telefonia.

“- Com mais sensores na rede, as distribuidoras teriam visão melhor do que estava acontecendo na rede de transmissão e o impacto não seria tão grande. Com a tecnologia de smart grid (rede inteligente), seria possível, por exemplo, definir que uma região com muitos hospitais seria a última a ser afetada”, explicou Elton Tiepolo, executivo da IBM Brasil.

Com a nova tecnologia, seria possível ter o registro, segundo a segundo, de como a energia deixou de ser transmitida, sendo possível determinar o ponto exato do problema.

Nos EUA, onde o governo destinou US$ 5 bilhões para projetos nessa área, a grande preocupação é a segurança da rede. O sistema elétrico americano é mais regionalizado, e a ideia é criar mais conexões entre essas infraestruturas regionais para garantir que o fornecimento não pare, por exemplo, no caso de ataques terroristas.

“- Comparado com o sistema brasileiro, o americano é muito menos conectado”, disse Tiepolo.

No Brasil, a discussão entre as empresas e o governo ainda está no começo. A tecnologia inclui o conceito de geração distribuída, em que empresas (e até consumidores) que produzem energia, com geradores ou painéis solares, por exemplo, conseguem fornecer eletricidade ao sistema.

“- A rede elétrica inteligente tem mecanismos para se autobalancear”, disse Maurício Torres, analista de Marketing de Utilities da Imagem, empresa de geotecnologia.

As soluções de smart grid permitem a criação de pacotes diferenciados de energia elétrica, a exemplo da telefonia. Seria possível oferecer descontos para os consumidores que não ligassem o chuveiro no horário de pico. Ou para quem concentrasse a maior parte do consumo na madrugada. Seria possível criar até pacotes pré-pagos.

“- O cliente terá uma cobrança mais justa”, disse Torres.

E a possibilidade da criação de cotas tarifárias diferenciadas é um dos principais apelos do smart grid. Isso porque esse modelo tornará possível que o consumidor residencial saiba quais os horários em que o custo da energia é menor.

“- É uma grande novidade o fato de o consumidor poder ajustar o seu comportamento de uso da energia para poder ter um gasto menor no final do mês”, comenta o coordenador do grupo multidisciplinar de smart grid do CPqD, um dos mais conceituados pólos de tecnologia do mundo em telecomunicações e tecnologia da informação, Luiz Hernandes.

As tarifas diferenciadas por horário estão disponíveis atualmente para os clientes de média e alta tensão. A Agência Nacional de Energia Elétrica está estudando a extensão para os de baixa tensão, como residências e empresas e indústrias de pequeno porte.

Questões como essas poderão provocar mudanças na curva de carga do sistema como um todo. Além da redução dos custos para o cliente, fará com que os picos de demandas sejam minimizados, aliviando as redes, adiando a necessidade de investimentos de expansão e manutenção e otimizando as usinas geradoras.

Atualmente, a medição é feita uma vez por mês, com a ida de um leiturista na casa da pessoa. Já o consumidor recebe a conta no final do mês. Com a telemedição, possível através dos medidores inteligentes, o cliente pode ter acesso ao seu medidor em qualquer momento, podendo acompanhar o consumo e, assim, projetar os seus gastos. Esse controle pode ser feito através da internet, em um portal específico da empresa, ou através de um display interligado ao medidor eletrônico, que pode ficar na própria residência.

A programação do horário para que os equipamentos elétricos passem a funcionar também é uma evolução esperada. Em algumas localidades, já é possível programar uma máquina de lavar roupa para que a mesma passe a funcionar de madrugada e até mesmo a recarga de um carro elétrico, propiciando uma economia de custos para o consumidor e evitando a sobrecarga do sistema elétrico.

“- Estamos ingressando em um novo mundo no qual será possível fazer um gerenciamento completo da energia elétrica. Essa é a primeira vez em 30 anos em que vejo algo realmente novo nesse segmento”, destaca o assessor da presidência da CEEE e responsável pelo acompanhamento do tema de smart grid, Ricardo Munhoz da Rocha.

Todo esse tráfego de informações passará por uma rede de transmissão de dados, como a fibra ótica. Essa infraestrutura poderá ser alugada junto às operadoras de telefonia, mas as próprias concessionárias poderão optar por ter o seu próprio sistema de telecom.

O controle inteligente permitirá ainda a implantação de um modelo de energia pré-paga, como já existe na telefonia. Já em uso em países mais carentes, como a República Dominicana, esse sistema permite que o consumidor carregue o cartão em uma loja com determinado valor. Antes de usar, basta ele digitar o código no medidor que, automaticamente, uma determinada quantidade de kilowatts é liberada.

Os motivos que levam os países a adotar o smart grid variam pelo mundo. Na Europa, a principal meta é a busca pela otimização das fontes de geração, que não são tão limpas como as encontradas no Brasil. Já nos Estados Unidos, procura-se de forma prioritária a confiabilidade do fornecimento e, no Brasil, a redução das perdas comerciais.

“- O conceito de smart grid é completamente aderente às necessidades brasileiras”, comenta o presidente do CPqD, Hélio Graciosa.

A expectativa é que, nos próximos dois ou três anos, o Brasil comece a experimentar as vantagens da medição eletrônica e da telemedição em larga escala. Mas recursos de smart grid mais sistêmicos deverão se tornar uma realidade em, no mínimo, dez anos.

Até agora, a discussão sobre a rede inteligente no Brasil esteve focada no combate à fraude. Os medidores eletrônicos de eletricidade poderiam acabar com as ligações clandestinas. Esse sistema de telemetria também acabaria com a necessidade de a distribuidora mandar um funcionário ler o medidor uma vez por mês.

O País possui atualmente 65 milhões de unidades consumidoras. Trocar os medidores eletromecânicos, que são muito confiáveis e têm uma vida útil longa, por outro novo sistema e em uma base tão grande exige uma série de padrões de operação e funcionalidade. Da mesma forma, espera-se a homologação pelos órgãos reguladores, como o Inmetro.

“- Esta migração implica uma substituição de algo que está dando certo e, por isso, deve demorar um pouco”, projeta o coordenador do grupo multidisciplinar de smart grid do CPqD, Luiz Hernandes.

As empresas terão um prazo de 18 meses, após a aprovação do projeto pela primeira fase da consulta pública, para começar a utilizar aparelhos digitais. A partir daí, os instrumentos modernizados devem ser instalados em novas ligações ou na substituição de medidores quebrados.

A partir do fim das discussões entre governo e as empresas do setor elétrico, a troca de aparelhos analógicos por eletrônicos será obrigatória.

Parece o oásis no meio do deserto todo esse papo, não é?

Mas eu me lembro que na década de 90, quando do advento e da popularização da telefonia celular no Brasil, todos éramos incrédulos. Não acreditávamos em sua disseminação por todos os cantos do país, e agora não vivemos mais sem os nossos smartphones, não é verdade?

Portanto, eu acredito que em um futuro próximo, se toda essa questão for encarada com a devida seriedade e não com o oba-oba e a politicagem que o governo sempre acaba envolvido, viveremos com maior conforto, quanto ao fornecimento e distribuição de nossa energia, que é abundante em nosso território, mas ainda muito mal gerida e aproveitada!

Fonte: Papo do Dia

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