O Custo das Redes Inteligentes

Fonte: Scientific American Brasil – Ed. Outubro/2010 por Roberto Galvão

Está em vigor no Brasil um estudo da agência reguladora de energia elétrica para a adoção de novos medidores residenciais de consumo de energia elétrica, que atualmente contabilizam cerca de 64 milhões em todo o país. Com a devida atenção e investimento, este pode ser o passo inicial para uma evolução sem precedentes no setor energético nacional, com a implantação das chamadas smart grids (redes inteligentes de energia), que podem modificar radicalmente a forma como se faz a distribuição, o consumo e o controle da energia elétrica.

Algumas experiências com smart grids que estão sendo desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa já comprovaram a viabilidade das tecnologias de monitoramento em tempo real e a comunicação de mão dupla entre a casa do consumidor e a concessionária. Essa tendência, que também vai chegar ao Brasil em algum momento, é um movimento natural no sentido de aprimorar as formas de medição de consumo, o relacionamento com o cliente e o monitoramento da rede como um todo, minimizando fraudes e obtendo mais precisão na medição do consumo. Isso porque as redes inteligentes são automatizadas com medidores em tempo real.

As vantagens são inúmeras, começando pelo combate à ineficiência energética, uma vez que as concessionárias terão mais controle sobre os “caminhos” da eletricidade até a casa do cliente. Além disso, como as smart grids contemplam monitoramento em tempo real, as concessionárias poderão também interferir e tomar providências em relação ao uso de energia, com sinergia, por exemplo, para programar o consumo de eletrodomésticos ou sistemas de calefação/ar-condicionado. Nos Estados Unidos já estão sendo feitos testes desse tipo. Com uma comunicação de mão dupla entre a casa do consumidor e a concessionária, eventuais falhas podem ser detectadas e corrigidas mais rapidamente.

Porém, o principal ponto de discussão sobre as smart grids é que, com todas essas inovações, a implantação do serviço demanda grandes investimentos por parte das concessionárias de energia, que precisam incorporar sistemas de telecomunicações em suas estruturas para dar conta do desenvolvimento desses processos. Este talvez seja o principal obstáculo para a implantação do sistema no Brasil, onde as relações custo-benefício ainda não se mostram equilibradas.

Para implantar uma rede inteligente as empresas de energia precisam ou construir a própria rede de telecomunicações, ou firmar parcerias com operadoras de telefonia que forneçam o suporte necessário para a transmissão das informações. Uma alternativa, que pode ser considerada bastante viável, é a utilização da própria rede elétrica para a transmissão dos dados, por meio da tecnologia PLC (Power Line Communications), quejá foi implantada com sucesso em Portugal e está em fase de testes no Brasil.

O problema é que os inúmeros benefícios relacionados às smart grids ainda não são suficientes para impulsionar a implantação do sistema em solo brasileiro. Uma das alternativas poderia ser um incentivo vindo do próprio governo, uma vez que as vantagens proporcionadas por esta tecnologia favorecem diretamente toda a sociedade.

Para ter uma ideia, uma smart grid, no topo de suas potencialidades, possibilitaria inclusive a comercialização de energia elétrica a partir das próprias residências, ou mesmo dos carros elétricos, que poderiam acumular eletricidade em períodos em que o valor é mais baixo e devolvê-la em períodos de pico, quando o preço é mais alto. Além disso, existe a opção de acompanharmos o consumo de energia elétrica de nossas residências em tempo real, por meio de um banco de dados, o que poderia gerar um controle maior sobre o consumo de energia e menos desperdício, acarretando maiores benefícios financeiros e até mesmo ambientais.

Quando tudo isso será realidade no Brasil ainda é um pergunta sem resposta exata, mas é certo que essas evoluções chegarão por aqui. A barreira inicial será a troca dos medidores de energia na casa de cada cliente, pois um modelo digital terá de ser introduzido. A infraestrutura de captação dos dados desses novos aparelhos também deverá ser aprimorada. Não será uma tarefa simples, mas não há dúvidas de que o investimento em ações que busquem o desenvolvimento sustentável – e as smart grids se encaixam perfeitamente nesse conceito – terá de ser uma bandeira de qualquer governo, órgãos reguladores e companhias. É esperar para ver. Consumidores e meio ambiente vão agradecer.

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