Fonte: Jornal da Energia - 23.08.2010 Por Paulo Silva Junior
Em cerca de um ano e meio a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pretende dar início a troca dos mais de 60 milhões de medidores eletromecânicos em funcionamento no País por aparelhos automatizados e mais inteligentes. Porém, apesar do assunto estar sempre na pauta do setor elétrico, o conceito de smart grids ainda vive um cenário de dúvidas e indefinições.
“Estamos no baile, todos bem vestidos, mas ninguém dança. Qual o volume de negócios envolvendo smart grids? Todos falam que estão em estado de espera. Vão esperar a moça chamar para dançar?”, provocou o professor José Sidnei Colombo Martini, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, durante a abertura do III Fórum Latino-Americano de Smart Grid, realizado em São Paulo, nesta segunda-feira (23/08).
Durante o debate, membros de concessionárias, agências reguladoras, associações e acadêmicos teceram opiniões sobre as lacunas que emperram a tecnologia. Martini, inclusive, iniciou sua apresentação com constatações sobre questões pendentes do mesmo evento realizado no ano passado. “Não há padrões estabelecidos, os recursos financeiros e regulatórios atuais não motivam a mudança, as perspectivas de ganhos em iniciativas isoladas não são atrativas, a quantidade de engenheiros não será suficiente”, listou.
A mão-de-obra também foi um tópico bastante abordado pelos debatedores. Martini ressaltou que os cursos de eletrotécnica precisam, cada vez mais, terem a companhia de temas relacionados à computação e telecomunicações. O professor Djalma Mosqueira Falcão do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), compartilhou da mesma preocupação.
“A formação precisa ter a base da engenharia elétrica e mais uma série de coisas que nem todas as faculdades mostram. Não acho que é o caso de se criar uma graduação para smart grids, mas flexibilizar o currículo, permitindo que o aluno curse algumas matérias. O momento é da especialização. Um engenheiro de telecomunicações, por exemplo, nos interessa”, disse.
Já o presidente do CPqD, instituição focada na inovação das tecnologias da informação, Hélio Marcos Machado Graciosa, acredita ainda que as conversas em torno das smart grids remetem a um novo paradigma. “O sistema agora evolui adicionando a eficiência. Temos que trabalhar sobre essa nova ideia do cliente ativo, do desenvolvimento de tecnologia que possa agregar valor e atender aos requisitos locais”, afirmou.
Representante da Aneel na mesa composta pelos pesquisadores, o superintendente de pesquisa e desenvolvimento e eficiência energética, Máximo Luiz Pompermayer, também levantou questões ainda sem resposta. “Temos dúvidas sobre quais são os melhores mecanismos para fomentar essa migração. Temos muito espaço ainda para pesquisa e desenvolvimento. Ainda temos dúvidas sobre como gerenciar isso”, admitiu.
“Fica todo mundo na dúvida se vai ou não vai, se investe ou não. A ideia do plano nacional para o assunto ajudaria”, completou Graciosa, questionado sobre a sintonia entre ganhos financeiros das concessionárias e a real necessidade de implantação dos novos medidores.
Início da migração e padronização
A migração dos medidores pode começar em 2011, segundo estimou na semana passada o diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner. Mas o superintendente de regulação da distribuição da agência, Paulo Silvestri Lopes, acredita que o início da operação pode demorar um pouco mais. “Talvez em 2012. Acho difícil que comece em menos de 18 meses”, disse durante o evento.
Um dos itens básicos para o início do processo de substituição dos aparelhos é a padronização dos medidores. Segundo Silvestri, fabricantes nacionais já estão se mobilizando na Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) pela criação de um protocolo brasileiro. O “protocolo”, de acordo com o especialista, é uma exigência da Aneel. Ele deve ser público, ou seja, permitir que o cliente troque de medidor em caso de problema ou insatisfação.
Entretanto, para o presidente do Fórum, Cyro Vicente Boccuzzi, a padronização brasileira tem uma ressalva. “É importante que os fabricantes nacionais estejam se mexendo, mas também não se pode fechar para os outros países. Imagine um celular que só faça ligação para o Brasil. Não adianta. Tem de ser algo que se relacione como um todo”, sustentou o especialista, citando a interoperabilidade, palavra que representa exatamente essa capacidade de comunicação entre os sistemas – que, apesar de ter difícil pronúncia, foi talvez a mais ouvida nas reflexões feitas no encontro.
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