Fonte: Jornal da Unicamp – 16 a 22.08.2010 Por Luiz Sugimoto
Segue parte da entrevista que o Jornal da Unicamp fez com o pesquisador Adilson Motter, que vem acumulando prêmios nos EUA pelo desenvolvimento de métodos teóricos para corrigir falhas em redes complexas. Ele não faz apenas um raciocínio futurista. Aos 36 anos, o cientista acaba de receber o Prêmio Investigador para Pesquisa em Energia, que além de prestígio lhe trouxe um aporte de 100 mil dólares para uma pesquisa relacionada justamente com a criação da nova rede. “O prêmio reconhece o potencial de inovação de um trabalho científico e é portanto uma oportunidade para fazer algo revolucionário”. Graduado em física e com doutorado em matemática aplicada pela Unicamp, Motter é professor de física e astronomia do Weinberg College de Artes e Ciências da Universidade Northwestern, e de matemática aplicada na McCormick School de Engenharia e Ciência Aplicada. “Tenho o privilégio de ser o único professor com formação inteiramente brasileira a fazer parte do corpo docente de uma das mais importantes universidades norte-americanas”. Por coincidência, quando foi contatado para conceder a entrevista que segue, Adilson Motter estava viajando ao Brasil a fim de dar um colóquio sobre seu trabalho para alunos e docentes do Instituto de Física “Gleb Wataghin” da Unicamp.
Jornal da Unicamp – Os prêmios que o senhor vem recebendo refletem o reconhecimento ao seu trabalho pela comunidade científica. Pode falar sobre sua linha de pesquisa?
Adilson Motter – Entre minhas contribuições mais recentes destacaria o desenvolvimento de métodos teóricos para corrigir falhas em redes complexas. Esses métodos servem, em particular, para recuperar atividade biológica perdida devido a mutações genéticas e também para controlar a propagação de falhas em redes tecnológicas, como por exemplo, em redes de transmissão de energia elétrica. Essa pesquisa é transdisciplinar e faz parte de um programa mais amplo que tenho desenvolvido no meu grupo, com o objetivo final de entender o comportamento coletivo em sistemas que consistem de muitas partes interconectadas, como uma teia alimentar, uma célula, uma rede de energia ou mesmo a internet. Um aspecto fascinante dessa pesquisa é que mesmo sistemas que parecem completamente não relacionados podem dar origem a comportamentos equivalentes. Eu e meus colaboradores exploramos essa “universalidade” para explicar, por exemplo, porque tantos sistemas naturais, e também construídos pelo homem, tendem a exibir sincronização. Muitos dos princípios que explicam porque vaga-lumes conseguem piscar juntos, também explicam porque geradores numa rede de energia tendem a oscilar juntos, ou porque frequentemente neurônios disparam juntos. Mas o estudo desses fenômenos coletivos ainda se encontra na infância e muito, talvez quase tudo, está para ser descoberto.
JU – Seu último prêmio, em julho, foi por conta de um projeto para o desenvolvimento de redes de transmissão de energia inteligentes. O que são elas?
Adilson Motter – O conceito de redes inteligentes é superinteressante e muito importante também para o Brasil. Hoje, quando você compra energia elétrica, é da única fonte disponível na área – a CPFL em Campinas, a Light no Rio, a Copel no Paraná. Mas no futuro próximo será possível ter a opção de escolher de quem comprar, em tempo real, e com base no preço que as empresas estarão oferecendo também em tempo real. Pequenos computadores embutidos no aparelho de ar-condicionado ou na máquina de lavar permitirão programar seus horários de funcionamento. Poderemos carregar a bateria do carro elétrico durante a madrugada, quando a energia provavelmente será mais barata – além de econômico, é ecologicamente correto. O conceito envolve uma tecnologia de duas mãos, em que os consumidores também terão flexibilidade para escolher a fonte da qual a energia elétrica que compram é produzida, levando em conta, por exemplo, o impacto ambiental.
JU – E como serão utilizados os recursos financeiros trazidos pelo prêmio?
Adilson Motter – Meu grupo de pesquisa trabalha justamente para transformar esses conceitos inovadores em realidade. Trabalhamos no desenvolvimento de modelos matemáticos e computacionais tanto para o controle de doenças e de perturbações em ecossistemas, quanto na criação de uma rede inteligente de transmissão de energia. Nesse último caso, estamos focados no modelamento da rede elétrica dos Estados Unidos, mas as ideias são gerais e poderão ter um impacto positivo também em outros países. Redes elétricas inteligentes vão se tornar ainda mais importantes no futuro, com o maior uso de energias como a eólica e a solar, que são de fontes intermitentes – pode haver vento e sol num momento, mas horas depois, não mais. Todas essas flutuações serão controladas de forma computadorizada, em tempo real, permitindo balancear produção e consumo. O consumidor, obviamente, não vai ficar ligando e desligando o computador em função dos horários de maior disponibilidade e menor custo da energia elétrica mas será beneficiado pela variação de preço associado a essas flutuações, por exemplo, ao programar o horário de recarga do carro elétrico. A questão é que tanto o uso de fontes interminentes, como a possibilidade de escolha do fornecedor pelos consumidores, vão trazer, inevitavelmente, novas perturbações à rede elétrica – e o risco de falhas e apagões. Daí, o ponto central da pesquisa do meu grupo, que é desenvolver métodos para controlar e manter estável a rede como um todo, mesmo na presença de perturbações.
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