Fonte: Revista TELETIME – Ed. 132 – Maio/2010 Por Samuel Possebon
Quando se fala em redes inteligentes de energia, algumas coisas são certas. A primeira é que estas redes precisam estar plenamente integradas com redes de telecomunicações, o que significa que as concessionárias de energia terão que construir sua infraestrutura de comunicações ou contratar de quem tem. “Smartgrids não têm necessariamente a ver com meios de comunicação, mas com inteligência para tornar as redes de energia mais eficientes. A infraestrutura de telecom entra como parte do processo. A tecnologia é conseguir colocar tudo junto, de forma eficiente, até o último nó, até a última milha. No caso, o assinante”, diz Bruno Regueira, executivo de desenvolvimento de negócios para smartgrids e utilities da IBM.
“O conceito básico é que as redes sejam bidirecionais para viabilizar o fluxo de eletricidade e informação, com foco na qualidade. No caso dos serviços de energia, o que se busca com smartgrids é a valorização da rede, com novos produtos e com inteligência nos serviços”, diz Paulo Magalhães, consultor com longa experiência no setor elétrico.
Algumas empresas de energia, como Eletropaulo, CPFL, Light, Cemig e Copel, já estão automatizadas até os transformadores de baixa tensão, em cerca de 60% na média. Uma rede inteligente prevê a automação ao longo de toda a rede elétrica, desde a geração, transmissão, distribuição e chegando ao cliente final, diz o consultor. “As empresas elétricas sempre colocaram muito foco nas subestações, sem dúvida o ponto mais crítico de toda a cadeia, mas a ideia de smartgrids se move, na minha opinião, mais no sentido dos clientes finais, principalmente os de baixa tensão”.
São vários os serviços possíveis com as redes inteligentes. Alguns já começam a existir, como PLC (Powerline Communications, que é a oferta de banda larga pela rede elétrica), medição inteligente de consumidores de baixa tensão, monitoramento remoto, supervisão da rede. “Da forma como são as redes de energia hoje, sem quase nenhuma automação, só se fica sabendo que um consumidor está sem energia quando ele liga para o call center”, diz Magalhães.
Isso significa que as empresas de energia, que têm décadas de existência, precisarão de novos equipamentos, desde o relógio de medição do assinante até novos transformadores e subestações.
Etapas
“Para que as empresas de energia cheguem a um estágio em que se possa dizer que suas redes são inteligentes, há algumas etapas a serem cumpridas. Primeiro, é preciso capturar a informação da rede, o que requer uma infraestrutura de telecomunicações. Depois, é necessário processar e analisar a informação, o que demanda novos sistemas de TI. E por fim existe a intervenção direta nos serviços e produtos oferecidos, o que precisa dos dois”, diz Petrônio Nogueira, líder da área de mídia e telecomunicações da Accenture. Tudo isso para dizer: chegar nas smartgrids é uma tarefa mais complicada do que parece.
“As empresas de energia têm que atingir e manter indicadores regulamentados pela Aneel na rede de média tensão e no cliente individual. Redes inteligentes podem ajudar nesse objetivo, ainda que não haja uma política do governo que obrigue as empresas a atuar em smartgrids”, explica Paulo Magalhães, ao apontar as razões que levariam empresas de energia a investir para tornar o cenário das redes inteligentes realidade. Segundo o especialista, para ter uma nova rede, totalmente inteligente, depende-se de um upgrade gradual para trazer melhorias para o sistema e garantir qualidade, evitar interrupções etc.
“Colocar inteligência na rede é algo que traz retorno alto para as elétricas, pois basicamente o tempo de interrupção no fornecimento diminui, e consequentemente aumenta o faturamento”.
Outra razão que pode fazer com que empresas de energia e outras utilities se movam em direção às redes inteligentes é a crescente pressão por operações sustentáveis e eficientes do ponto de vista energético. “Há uma discussão mais de fundo que é a da sustentabilidade e de buscar redes mais eficientes. Não é apenas ter lares e redes mais inteligentes, mas uma gestão de energia mais inteligente”, diz Nogueira, da Accenture.
Para Magalhães, há também um filão econômico associado ao consumo sustentável. “Há os pequenos consumidores de energia, onde existe muito desperdício. A maior parte desses consumidores sequer tem consciência de quanto estão perdendo. Até o momento, as concessionárias de energia vêm atuando basicamente apenas no provimento de energia via mercado livre e em eficiência energética a grandes consumidores”, diz Paulo Magalhães.
Nenhuma empresa de energia tem hoje um cronograma para implementar smartgrids no Brasil, diz Magalhães. “Vai ser um processo bottom-up e não top-down, começando com iniciativas como PLC e medição inteligente por segmentos”, explica.
E é justamente a questão da medição inteligente que levanta talvez a principal barreira e o que pode ser o maior motivador para que as redes inteligentes cheguem ao Brasil: regulamentação e políticas públicas, respectivamente. “Hoje existem desafios regulatórios a serem vencidos”, destaca Regueira, da IBM. “Lá fora as coisas estão mais evoluídas por conta da legislação. Por exemplo, pode-se vender serviços associados à energia, como o gerenciamento de serviços em horários mais baratos. Mas isso só é possível em um ambiente com flexibilidade na tarifação”, lembra o executivo.
Aqui, os ganhos auferidos não podem ser revertidos para o operador. Se isso acontecesse, as empresas de energia teriam mais interesse em investir, certamente. O primeiro desafio, segundo os especialistas, é adaptar a regulamentação atual a um ambiente de redes inteligentes, que permitirão serviços adicionados além da mera distribuição de energia. Hoje, tudo o que a operadora de energia faz, de acordo com a regulamentação, deve ter como foco a qualidade do serviço e a modicidade tarifária, ou seja, a redução de custos ao consumidor. Princípios como sustentabilidade, inovação e desenvolvimento de novas oportunidades de negócio não são norteadores da atividade regulatória.
Estudo regulatório
Paulo Henrique Silvestri Lopes, superintendente de regulação e serviços de distribuição da Aneel, explica que em abril o Ministério de Minas e Energia editou a Portaria 440, que cria o grupo de trabalho para “analisar e identificar ações necessárias para subsidiar o estabelecimento de políticas públicas para a implantação de um Programa Brasileiro de Rede Elétrica Inteligente.” A portaria do Ministério de Minas e Energia cria um grupo de trabalho que busca estudar a realidade dos projetos de smartgrids no Brasil e no mundo, propor a adequação das regulamentações, identificar fontes de recursos para incentivar a produção de equipamento no país e estudar a possibilidade de que os usuários possam também gerar e consumir energia simultaneamente. A ideia, ao final de 180 dias, é estabelecer os parâmetros para uma política de smartgrids. Um relatório final está previsto, conforme a portaria, para a segunda quinzena de novembro.
Hoje, explica Paulo Silvestri, da Aneel, a agência de energia e o marco regulatório do setor têm como principal parâmetro de trabalho a modicidade tarifária e a qualidade da oferta final de energia ao consumidor. Uma nova política, que vise também a atualização das redes de energia em busca de um consumo mais eficiente e inteligente, é algo que deve sair desse debate. “É uma discussão ainda inicial. Já estamos trabalhando em uma regulamentação de medidores inteligentes, onde se prevê conectividade bidirecional desses equipamentos”, explica o superintendente. “O desafio é que as empresas de energia têm que seguir parâmetros de confiabilidade que nem sempre estão disponíveis no mercado”, conclui. As redes inteligentes de energia, que começam a ser implementadas em todo o mundo, têm como uma das principais características o fato de trafegarem informações de forma bidirecional, por meio de uma infraestrutura paralela de telecomunicações e TI. Essa infraestrutura será construída pelas próprias empresas de energia ou contratada de provedores de telecom. É aí que também no mundo regulatório os setores de energia e telecomunicações se cruzam, tanto que algumas empresas de energia estão pleiteando junto à Anatel faixas de espectro específicas para a operação de smartgrids.
Outra questão importante é a do financiamento das redes inteligentes de energia. Uma das ideias é utilizar os recursos destinados ao programa de eletrificação Luz para Todos para viabilizar o desenvolvimento das smartgrids (isso, é claro, quando o programa do governo federal atingir todos os seus objetivos). Até hoje, mais de R$ 6 bilhões foram investidos pela CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), recursos que podem ser aportados de forma similar em políticas públicas de smartgrids se elas chegarem a ser desenvolvidas.
Outra possibilidade para que se estabeleça uma política de desenvolvimento das redes inteligentes de energia seria utilizar o Plano Nacional de Banda Larga, recentemente anunciado, para fomentar investimentos em smartgrids e o compartilhamento de redes entre os dois setores.
Mas isso traz à tona pontos de atritos entre os setores de telecom e de energia que até hoje atrapalham. Basta lembrar que as principais experiências com PLC no Brasil aconteceram entre 2001 e 2003. “O serviço não decolou ainda porque ainda há uma espécie de divisão entre as elétricas e as teles que impede a formação de uma parceria efetiva para lançar comercialmente o PLC em grande escala”, diz Magalhães. Não é o único problema, contudo. Justamente a regulamentação do setor elétrico proíbe a concessionária de energia de vender o serviço de dados, sempre com o argumento da modicidade tarifária. E por isso o PLC ainda não encontrou o espaço que deveria no Brasil. Resta saber se será a mesma coisa com as redes inteligentes.
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