As tecnologias conhecidas como BPL (Broadband over Power Line) ou PLC (Power Line Communications), que permitem a transmissão de dados via cabos elétricos, têm uma história de décadas. Apesar de melhorias substanciais na capacidade destas tecnologias de transmitir dados, inclusive Internet de banda larga nos últimos anos, não parecem vingar em larga escala apesar dos numerosos testes realizados no Brasil e outros países do mundo.
As razões parecem ser diversas – as empresas de distribuição de energia elétrica têm que estabelecer outra entidade jurídica para vender telecomunicações ao usuário final mesmo usando os mesmos cabos, lidar com duas reguladoras – de telecomunicações e do sistema elétrico (no Brasil Anatel e Aneel, respectivamente), confrontar problemas de interferência no espectro eletrônico (os cabos elétricos podem se comportar como antenas), e competir com provedores tradicionais, como as operadoras de telefonia e TV de cabo.
Mas as empresas distribuidoras de energia elétrica e os governos continuam de olho nestas tecnologias, que também vêm evoluindo. O fio elétrico é o mais “democrático” – chega em 97% dos domicílios brasileiros e, ademais, a comunicação de dados nos cabos elétricos pode ser usada na modalidade que se chama smart grid (ou rede elétrica inteligente), que envolve o uso de comunicação bi-direcional na rede e de recursos computacionais para melhorar a eficiência, confiabilidade e segurança das redes de transporte de energia e possibilitar a oferta de novos serviços aos consumidores.
Por exemplo, usando tecnologias smart grid é possível administrar equipamentos na própria rede de distribuição (usando sensores inteligentes), simplificando sua manutenção e o controle de perdas, tanto “técnicas” como “não-técnicas” (estas últimas incluem o furto de energia, os tais “gatos”). As perdas no Brasil são bastante altas, na ordem de 18,5% da energia gerida. Outra possibilidade é promover uma melhor gestão da demanda do consumidor – via o uso de tarifas variáveis de acordo com a demanda global no sistema, que pode incentivar o consumidor a reduzir o consumo nas horas de maior demanda (e consequentemente o preço), assim reduzindo a necessidade de novos e caros investimentos em geração e fazendo um uso mais econômico da capacidade de geração existente. Isto se torna possível via medidores eletrônicos que podem se comunicar nos dois sentidos, geralmente fazendo uso da própria rede elétrica.
Há benefícios ecológicos nisso também: menos emissões e possibilidade de incentivar alguns consumidores a também produzir e vender energia limpa à rede, por exemplo investindo em turbinas eólicas, painéis solares e pequenas hidroelétricas – tais “prosumidores” podem vender energia ou comprá-la dependo dos preços e necessidades próprias de consumo. Mas é difícil que os medidores sofisticados sejam usados para a grande maioria das residências no Brasil, porque o custo dos medidores eletrônicos é muito mais alto do que o dos convencionais, e o custo de ler os medidores manualmente é muito baixo comparado com a Europa ou os Estados Unidos.
A Resolução 527 da Anatel, publicada no dia 13 de abril deste ano, aprova o Regulamento sobre Condições de Uso de Radiofrequências por Sistemas de Banda Larga por meio de Redes de Energia Elétrica (BPL). Este regulamento cerca o uso desta tecnologia com vários requisitos desenhados para evitar que os sistemas BPL causem interferência prejudicial em outros serviços, como o de Radioamador e o de Radiodifusão de Sons e Imagens – serviços que terão prioridade em caso de conflitos. Também os equipamentos que compõem o sistema BPL devem possuir certificação expedida ou aceita pela Anatel, de acordo com a regulamentação vigente, e atender às normas cabíveis, referentes ao sistema elétrico, expedidas pela Aneel.
Numa outra frente, a Aneel preparou documentos sobre medidores eletrônicos e está conduzindo uma consulta pública para a questão de substituição de medidores eletrônicos para os eletromecânicos tradicionais, um elemento no desenvolvimento de Smart Grids. A consulta – que deve resultar em mais estudos detalhados, experiências-pilotos e eventualmente normas para este tipo de equipamentos, está criando grande interesse entre os fornecedores de equipamentos especializados, organizados no Fórum Latino Americano de Smart Grid. O Fórum está se mobilizando para contribuir as opiniões de seus sócios numa forma consolidada na consultas pública.
Tudo isto é animador, mas por outro lado as razões que impediram até agora mais avanço da BPL, assim como os altos custos de medidores sofisticados e todo o sistema de equipamentos relacionados e os muitos requisitos técnicos já especificados ou por especificar, sugerem que seria pouco realista esperar um progresso muito rápido destas tecnologias. Mas poderíamos ter surpresas agradáveis. É importante ter mais competição entre tecnologias e empresas que oferecem a banda larga. Há possibilidades interessantes de inclusão digital fazendo uso da capilaridade do sistema elétrico. E há muitos benefícios a serem explorados com o desenvolvimento de smart grids, assunto que está em voga nos Estados Unidos, Europa e Ásia.
Fonte: Portal Banco Hoje – Abril de 2009 - Por: Peter T. Knight
Sobre o autor:
Peter T. Knight é Coordenador do Projeto e-Brasil e Presidente da Telemática e Desenvolvimento Ltda.
peter.knight@e-brasil.org.br
www.e-brasil.org.br
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